ÉTICA E MEDICINA



A vida é curta
E muito longo o caminho a percorrer.
As oportunidades são passageiras
A experiência traiçoeira
E a avaliação difícil.

Hipócrates

Nunca como nos dias de hoje os conceitos de ética e de moral foram tão utilizados, tão absurdamente banalizados e tão raramente cumpridos. São várias as correntes que os definem, diferentes os conceitos em que assentam e estabilizam procurando, duma forma pouco ética (digo eu), ganhar tempo e espaço para que, a partir da confusão, os mesmos não se cumpram em nenhuma das visões que os fundamentam.
O cidadão vive desconfiado, e enjoado, destes conceitos vazios perante uma realidade em que se perde e se revolta sem que, quem dirige os destinos, se digne dar outra forma à ética das instituições e à cadeia humana que as encarna.
Por vezes é escabrosa a ética dos sem ética que apregoam a ética. Na medicina e na investigação médica alguns exemplos chegam a doer. Não porque sejam piores que muitos outros na sociedade mas porque quando se trata de vidas humanas, de sofrimentos e oportunidades de vida, falar em ética é mais do que citar exemplos. É trazer, com toda a crueza, para a luz do dia a falta de oportunidades que impedem muitos de respirarem e, consequentemente, de continuarem a viver.
A investigação médica, dizia-me um amigo, vive, desenvolve-se e direcciona-se consoante os interesses da indústria farmacêutica. Mas logo acrescentava que sem os milhões que a indústria farmacêutica disponibiliza para as investigações estas não conheceriam os avanços, por vezes espectaculares, em áreas tidas como particularmente sensíveis e onde se tornou possível salvar muitas vidas e conferir-lhes novas qualidades.
Outros murmuram que medicamentos caros não são receitados a doentes em hospitais públicos ou que certos médicos receitam medicamentos de marcas e em quantidades discutíveis.
Fala-se também nas listas de espera para cirurgias, e em demoras que podem fazer toda a diferença.
Choca-me de sobremaneira representar mentalmente estas situações e, quando o faço, a revolta é tão grande que não me conformo. Podem existir opiniões divergentes em relação a muitas teorias políticas e de governação mas em relação à saúde costumo dizer: aqui não há conversa fiada. Todos têm que ser tratados como gente e em igualdade absoluta seja qual for a sua condição. Nada menos que isto é digno. Nada menos que isto pode ser aceite por quem ainda lhe resta um pingo de decência.
Falar de ética e moral no mundo da economia, do nosso quotidiano ou na esfera do consumo é remetermo-nos para uma realidade composta por várias realidades em que o desenvolvimento humano submerge perante a mundialização que, pelas suas vicissitudes, compromete o aperfeiçoamento das relações humanas. Enquanto os interesses filtrarem os que os servem excluindo os que os prejudicam, a ciência cria e alimenta clivagens cada vez mais brutais no plano das desigualdades.

3 comentários:

M. disse...

Ética, moral, medicina, seria um espaço de discussão que daria pano para mangas. Hipócrates bem o adivinhou como caminho díficil. Hoje senti-lo-ia como quase impossível? Quando apela apenas à consciência do ser humano que tem à partida a força e liberdade suficientes para procurar sempre a justa medida. Mas algo que parece ser dominado por um deus de cifrões sobrepõe-se ao saber racional e ao exercício da sua liberdade com consciência e sentido de dever para com uma vida. Torna-se quase impossível uma verdadeira sinergia constituída de compaixão, vontade de curar e prestar o mesmo cuidado com todos os seres em co-existência harmoniosa.
E tão longo ainda o caminho a percorrer, desde Hipócrates.

Abraço

Å®t Øf £övë disse...

Lídia,
Falar de ética e moral no mundo da economia pode até ser aceitável, agora no mundo da medicina não há espaço para olhar para a doença sob um prisma economicista, só que o principal problema é que os nossos hospitais estão cada vez mais cheios de economistas nos postos de decisão, e querem tratar a saúde como uma empresa qualquer. E isso é que está mal, e o pior problema é que ainda vamos na fase inicial de implementação deste sistema, por isso até esta situação ser revertida muitas vidas ainda se irão perder.
Bjo.

Fatyly disse...

Parabéns pelo texto.

A indústria farmaceutica é um campo pantanoso porque sempre imperou a luta pelas patentes etc, etc.
Médico que é médico, que ama a sua profissão trata de igual forma qualquer ser humano e com tudo que tenha ao seu alcance.
Nós agora e actualmente, regidos por um governo economicista e como é referido no comentário anterior, com "economistas" nos postos de decisão é um grave problema porque serão eles bons economistas ou oportunistas?
Mas também sei que a nível hospitalar era ou ainda é desviado para não dizer gamado imensas coisas, desde o simples algodão até ao bisturi XPTO originando que a aplicação de verbas fosse tão mal gerida sem "qualquer ética e moral".

Agora não acredito que a ciência "crie e alimente clivagens no plano das desigualdades" até porque um ou vários cientistas do nosso país nas mais diversas investigações, não trabalham sózinhos mas interligados com muitos outros do mundo.
À ciência compete investigar e descoberto algo que derrube uma doença é posto à disposição de todos que irão fabricar a "poção descoberta" e aí sim...entra-se no campo pantanoso da Indústria Farmacéutica que por vezes procede sem qualquer ética e moral!

A vida realmente é demasiado curta como diz Hipócrates e a avaliação do "certo ou errado" já não será feita por nós, porque alguma vez o meu avô pensaria que iriam descobrir a cura para a febre tifóide?

Na volta nada disse...

Beijos e foi bom ter vindo até aqui