Pensando na morte, olhando para a vida


Depois do excelente texto da Lidia, sobre a eutanásia e dos comentários deixados que embora não sejam em quantidade suficiente para se tirar uma amostra fidedigna, da qual possamos tirar conclusões, acho que podemos fazer uma reflexão sobre a vida e a morte.
A vontade de viver parece ser predominante nos comentários, mesmo em pessoas que têm uma vida sofrida e se acham tremendamente infelizes. A morte pensada por aqueles que estão bem e acham que numa situação desesperada a desejariam e mostraram ser a favor da eutanásia não é convincente. Já o testemunho de pessoas que viram em agonia entes queridos que pouco tempo antes de morrer desejavam viver, mesmo estando em grande sofrimento, parece ter mais peso.
Um cunhado meu, em conversa que tive com ele nos momentos em que estava lúcido, ligado ao doseador de morfina, respondeu-me à pergunta que lhe fiz se tinha medo de morrer, que não, mas mostrava-se preocupado com uma filha que estava a entrar na adolescência e que precisava dele para sobreviver. Para o tranquilizar disse-lhe, que enquanto houvesse um prato de sopa para os meus filhos também haveria para a filha dele. Apertou-me o braço como se estivesse a passar o testemunho, e o seu rosto transmitia uma paz e uma serenidade que nunca antes eu tinha visto. Morreu algumas horas depois.
O meu pai, homem duro e cuja fé sempre foi de porta de igreja, indo sempre à saída da missa para ver as beldades que lá iam e depois trazer a minha mãe de volta a casa, quando se apercebeu que a morte estava próxima, tinha longas conversas comigo querendo que eu lhe explicasse como era essa coisa da alma e para onde ia, algo que nunca consegui explicar-lhe convincentemente pois também eu não sabia. Valia-me dos ensinamentos da igreja quando era criança nos quais nunca acreditei, mas ele não era parvo e apercebia-se que eu estava com conversa de treta falando sobre algo em que não acreditava. Nos últimos dias de vida deixou de se preocupar com ele e passou a preocupar-se com a minha mãe, sua companheira de mais de cinquenta anos de vida em comum, querendo assegurar o seu futuro enquanto ela por cá estivesse. Teve uma agonia prolongada de muitas horas e só partiu quando eu cheguei e lhe dei um beijo. Morreu alguns minutos depois de eu chegar. Com a ajuda de umas vizinhas dei-lhe o último banho, e vesti-lhe o fato que levaria para a cova. Ia dando os braços e as pernas, como se estivesse ajudando a ser vestido para a última cerimónia em que iria participar. Antes era extremamente difícil movimentá-lo, pois as escaras causavam-lhe dores terríveis mesmo com todos os cuidados. Vim para a rua olhando para o céu como que a procurar o local onde ele estaria não o encontrando. Hoje sei onde ele está, e continua vivo e assim continuará em mim até eu partir. É o meu conforto nas horas de amargura.
Interrompi o texto por um bocado, pois como devem compreender é penoso para mim falar desta vivencia que não obstante já terem passado perto de quinze anos continua bem viva dentro de mim.
Voltando ao tema da eutanásia, há pontos a considerar sobre a mesma, focando em especial a decisão a tomar por um ente querido, que na impossibilidade do doente terminal poder revelar o seu desejo de morrer, tem de decidir sozinho ou em conjunto com outros familiares a cessação da vida, quer autorizando o desligar da maquinaria de suporte da mesma, quer pedindo a administração de drogas letais que provoquem a morte sem sofrimento. Espero nunca vir a estar numa situação dessas. Facilitando a vida a pessoas que eu amo e um dia poderão enfrentar essa mesma situação em relação a mim, digo que o meu desejo seria a morte nessas condições. Posso estar mentindo mas penso que procedendo desta forma os estou a ajudar a decidirem, para que em suas consciências possam sempre dizer: -Era o desejo dele.
A morte e o sofrimento é o que menos desejamos mas é necessário estarmos preparados, porque é impensável fugir dela porque de uma forma ou de outra um dia vai acontecer a todos os seres vivos.
Continuarei a abordar este tema com mais ou menos regularidade, não porque goste de o fazer, mas porque acho essencial de quando em vez reflectirmos sobre o mesmo.

8 comentários:

M. disse...

É um tema a abordar tão bem como qualquer outro,se bem que se verifique um enorme tabu de volta da morte. Como se o facto de se evitar falar nela impeça que ela chegue.A perda e o sentimento horrível da perda, toca-nos a todos. Uns conseguem viver com isso. Outros não.
Mas o facto é que o ser humano tem e ter consciência de que a morte e a dor da morte, presente em cada momento das nossas vidas, tem que servir um propósito sublime e nobre. Tem que servir para nos despertar, em cada segundo, para a dádiva da vida. Seja em que circunstâncias forem. Não importa se estamos doentes, não importa se nos encontramos completamente vencidos pelo desaparecimento de um ente querido, não importa se atravessamos um período de imensas provações e privações. Estamos vivos enquanto estivermos. E enquanto estivermos nós é que devemos algo à vida e não a vida que nos deve algo a nós.

Beijo bem vivo

Paulo disse...

Após o diagnóstivo VIH positivo a ideia/certeza da morte atormentou-me por algum tempo.
Aos poucos apercebi-me da sua existência extensível a todos os seres vivos como realidade a ter presente mas ausente a cada dia que passa.
Hoje, a morte não me assusta.
Viver um dia de cada vez, sempre.
E desejar também, a cada momento, a maior qualidade de vida possível, para que o efémero seja eterno, ainda que, por tempo indeterminadamente limitado.
Abraço

Fatyly disse...

Não me incomoda falar da morte, incomoda-me sim é falar do sofrimento que já presenciei e se me calhar essa dose, não poder fazer o que pretendo: morrer com dignidade e sem sofrimento num palavrão: eutanásia!

Mantenho o meu comentário feito no post de Lídia.

Bom fim de semana**

sideny disse...

nao me incomoda falar na morte.dado que gosto bastante de viver,alias cada vez mais.
mas no sofrimento que se tem numa doenca terminal ai sim incomoda-me e muito.
por isso escolheria a eutanasia por muitos motivos, que disse no outro post.
bej

SILÊNCIO CULPADO disse...

Raul
A eutanásia é um tema que nunca está esgotado. É porque uma coisa é nós falarmos quando não estamos na situação e outra é quando estamos confrontados com a situação.
Sou uma defensora da vida como já disse e lutarei sempre pela vida e no sentido da vida.
Porém, e volto a insistir, há uma diferença entre eutanásia e o prolongamento da agonia através de métodos artificiais quando se sabe à partida que não resultam.
Em qualquer dos casos a defesa dignidade aconselha que se evite o sofrimento a todo o preço e a todo o custo. E penso que a medicina tem, nesta altura, respostas para isso. Infelizmente ainda não são acessíveis a todos.
A eutanásia não é permitida por lei mas em casos muito excepcionais como o do Rámon eu acho que seria capaz de assumir a decisão.
Apesar de tudo uma coisa é o que dizemos agora e outra é quando estamos mesmo perante as circunstâncias.
Abraço

Maria Dias disse...

Olá amigos do Sidadania...

Convido vocês a passarem no meu avesso.O assunto é do interesse de todos.

Agradeço já a quem por lá passar!

Abraços

Maria

Silvia Madureira disse...

Olá:

Perante este tema devo dizer que o meu cérebro fica enrolado...não sai nada de jeito...

Apenas espero que...caso esteja numa situação destas o meu cérebro não se enrole tanto como agora e eu tome uma decisão com toda a convicção de é de facto isso que quero...

Se tiver que decidir seja o que for, que tenha destreza e força para o fazer sem retaliações.

De facto agora...sinto-me enrolada.

beijo

Mastigando cinzas disse...

Raul, muito comovente este texto, e muito lindo; plantado com lágrimas. Excelente material nesta página, e muito boa dissertação sobre o suicídio. Parabéns. Júlio.