Homossexualidade - o eterno dilema

Assiste-se actualmente (?) a um emergir lento da identidade homossexual aos olhos do mundo, com as revelações de homens e mulheres supostamente rejeitados pela sociedade e pela Igreja devido às diferenças afectivas e sexuais. Após séculos de rejeição, destruição e intimidação, começam a soprar alguns ventos de liberdade.

A importância da imagem no exercer de uma profissão, o querer enveredar pela vida religiosa torna-se incómoda para quem é homossexual. Numerosos gays e lésbicas ficam “marcados” nas suas vidas, devido à ignorância da Igreja e da sociedade. Esta exclusão é sem dúvida motivada pelo medo e pela ignorância. A Igreja católica não conhece a realidade humana e espiritual com que vivem os gays e lésbicas, aplicando os termos “vergonha”, “desonra” ou “relações anti-natura”. No entanto já se levantam comentários positivos por parte deste órgão como bem manifestam as palavras do Cardeal Patriarca D. José Policarpo sobre o assunto: “ Não sou contra a relação homossexual. Apenas defendemos o valor da família como célula nuclear”(sic).

Na realidade, estes homens e mulheres, só recentemente se levantaram apesar das feridas já infligidas, e impõem a liberdade de amarem, da única maneira que conhecem. A exclusão de que são vitimas está igualmente relacionada com a ideia de que o homem foi criado como ser heterossexual e que a homossexualidade seria um desvio no plano da Criação, que muitos apelidam de “pecado” ou de “ doença”, termos defendidos por “terapeutas” homofobos que tentam a todo o custo mudar a orientação sexual pela terapia, oração ou se necessário, manter o celibato forçado excluindo qualquer forma de amor sexual. Ou seja, o mesmo que afirmar que a manifestação da sexualidade é um direito exclusivo dos heterossexuais. O Vaticano foi dos primeiros a lançar-se ao ataque alertando para a “propaganda enganosa” das chamadas “comunidades católicas gays” que punham em causa a interpretação das Sagradas Escrituras.

Não imagino o dilema sofrido por inúmeros homens e mulheres ao descobrirem neles uma determinada orientação sexual sem que para tal tenha havido alguma influência na sua vida. Algo que nasceu neles sem explicação mas que tentam a custo mudar devido ao medo de ser vaiado pela sociedade. Mas mudar esta orientação inata é na realidade, tão fácil como mudar a cor natural dos olhos. Tentar transformar os homossexuais em heterossexuais acaba por provocar sofrimento e um resultado desastroso a nível psicológico e só serve para evitar o diálogo e a aceitação e fomentar a exclusão social. A própria família vê os seus valores abalados quando conhece a existência de um filho(a) homossexual. A vergonha leva os membros da família a controlar estreitamente as suas emoções impondo princípios demasiado rígidos e cuja regra absoluta é calar todo e qualquer assunto.

Não há um partilhar de sentimentos nestas famílias. Uma criança ou adolescente neste meio que tenha tendências homossexuais experimenta uma vergonha e uma culpa quando sente que foge ao estereótipo da família com valores morais. É obrigado a esconder a sua verdadeira essência representando um papel falso e conformista para ser aceite na família. Esta, e a própria sociedade esquecem-se frequentemente que o ser homossexual também possui qualidades e dons que contribuem de forma positiva para o desenvolvimento da sociedade em que vivem.

É claro que cada um mede o risco que a revelação da sua condição pode desencadear na sua vida. E avizinhando uma reacção negativa por parte das pessoas muitos optam por assumir sozinhos a guardar para si as pulsões secretas que os levam a querer alguém do mesmo sexo. A não-aceitação de si próprio leva a comportamentos mais desviantes do que se pensa. Enveredar pela bissexualidade é um deles. Os bissexuais ou ditos bissexuais engrossam as estatísticas e são cada vez em maior número. A questão é se se trata mesmo de um interesse por pessoas de ambos os sexos ou se é um meio de mascararem a sua verdadeira homossexualidade, escondendo-se no seio de uma família com filhos, com educação e valores e por outro lado, praticando uma vida dupla na qual existe uma pessoa do mesmo sexo envolvida. É um constante enganar a si próprio e à família que nele acredita.
Abril 2006 / cedido por M.

15 comentários:

R. Rudoisxis disse...

Um texto muito bom, e agradecemos a oferta e o tê-lo cedido ao "Sidadania" para publicação.
Ideias claras e bem definidas, que de uma forma simples nos levam a compreender a homosexualida em si e a não hostilizarmos aqueles que têm uma opção sexual diferente.
Um beijo
Raul

Fatyly disse...

Obrigado por este texto magnífico, ilucidativo e em prol de quem sofre na pele a rejeição da sociedade.

A Igreja mantem o seu papel e não vejo uma mais valia nas palavras do D.Policarpo:“ Não sou contra a relação homossexual. Apenas defendemos o valor da família como célula nuclear”(sic) o que para mim não defendem em nada e em muitas igrejas querem é "distância". Pessoalmente ele não é contra mas passando ao plural "defendemos a célula nuclear"!
Dentro da própria igreja há padres, que como homens da sociedade, também são diferentes, erram e têm defeitos e alguns até enveredam pela prática de horrores (pedófilia).
Não apontes nem condenes os outros para que não sejas apontado nem condenado - esta é a minha filosofia de vida!
Conheço quem o seja e em nada são diferentes dos outros seres humanos. Falo muito com eles e dão-me razão quando digo: se habitualmente já não gosto de "carnavais" para quê o exagero praticado por muitos homossexuais? Embora respeite o modo de vestir, de se ornamentar, de se pintar, de se encher de salameques... de quem quer que seja.

Depois o texto refere a bissexualidade...isso sim, além de guardarem para si a sua dor de ser diferente, quando já não conseguem aguentar, provocam um choque em cadeia e impera a pergunta: porque mentiste?

Deixá-los em paz e só espero que as sociedades começem a aceitá-los e mais...deveriam ter os mesmos direitos desde que paguem os impostos.

Um abração sincero

SILÊNCIO CULPADO disse...

Ninguém deverá ter vergonha de assumir-se como é. A sociedade, e as suas hipócritas interpretações de amor e família, é que deveria ter vergonha de discriminar pessoas que pagam os seus impostos, respeitam a dignidade alheia e querem ser olhadas de igual para igual.
Nada de mais legímo e humano este desiderato. Só é mal o que prejudica terceiros e a orientação sexual ou a vida íntima de cada um são aspectos que deverão ser preservados para quem dizem respeito.
Há que caminhar no sentido duma maior maturidade social que passa por um relacionamento mais próximo e afectivo com os nossos semelhantes. A diferença não é redutora mas sim enriquecedora do património do conhecimento e das emoções.

Abraço especial a quem escreveu este belo e elucidativo texto.

Paulo disse...

Fatyly
Tens toda a razão nos argumentos que tão bem invocas. Cada um é como cada qual, todos diferentes, todos iguais e o mundo é constituído (ou deveria sê-lo) por todas as diferenças, o que o torna mais diversificado, mais belo e com mais sentido.
Um beijo sincero.

Paulo disse...

Lídia

"A diferença não é redutora mas sim enriquecedora do património do conhecimento e das emoções."

Está tudo dito, nada mais a acrescentar.

Um abraço apertado

Borboleta disse...

Olá Paulo!

Pois é, desde que me conheço com o direito de pensar que me apercebo que fui educada através da religião católica. Acontece que hoje (aos 29 anos) sei e não tenho problemas em dizê-lo, que não consigo acreditar em metade das coisas que aprendi!

Acredito que existe algo qie me transcede e com quem eu tenho os meus monólogos sobre questões da minha vida, mas não consigo aceitar algumas das "regras" impostas pela religião.

Tenho amigos que têm uma orientação sexual diferente da minha, mas não é por isso que deixam de ser excelentes pessoas e que a cima de tudo NÃO DEIXAM DE SER MEUS AMIGOS!!!!

Estarei cá sempre que eles precisarem, tal como todos os outros amigos que tenho!

Acho que a cor, raça, orientações...nada disso importa pois somos todos seres humanos com sentimentos e sangramos todos da mesma forma!!

Uma vez participei num evento em que nos deram uns pins (alusivos ao evento) em que diz:
Todos Diferentes
Todos Iguais

Mantenho essa filosofia e ainda agradeço por sermos todos diferentes, pois a riqueza de ser-se um ser humano está aí na diferença que possuimos uns dos outros! Pois só assim podemos conhecer novas facetas, novos gostos, respeitar e conhecer novas ideologias, etc...

Sinto-me mais rica e feliz por saber entender o que me rodeia e por não viver com palas nos olhos de maneira que só conseguiria ver 1/5 do caminho que posso percorrer na vida!

Quanto às mudanças...as minhas já estão bem orientadas, não te preocupes! E as tuas? Espero que esteja tudo a correr como planejaste ou como desejas!

Neste momento já ando de volta dos preparativos para a nossa festa de casamento que será no fim de Agosto, embora ainda tenha que fazer umas viagens à covilhã para ir buscar o resto que ainda lá está!

Muitos beijinhos!

Maria Dias disse...

Oi Paulo...

Este post está muito interessante e tudo o q dizes é pura realidade.Tive um grande amigo homossexual e alguns conhecidos também.Sei que ser gay não é opção mas é fato!A igreja não aceita...A família também não...A sociedade debocha e vira as costas para essas pessoas que até para arrumar emprego omitem a sua situação.Quase não se vê um médico assumido ou um advogado por exemplo.As mães por amarem demais geralmente aceitam seus filhos tal como são mas os pais não são nada flexissíveis.Digo por mim que aceitaria um filho assim.Aceitaria mas sofreria também, por imaginar quantas coisas ele teria que passar até amadurecer...Quanta discriminação,insegurança,medo e tristeza por ser de uma certa forma "diferente".Imagino a cabeça de um jovem que se descobre assim...
Sobre a bissexualidade,sempre imaginei que se trata de uma pessoa capaz de amar e se apaixonar pelos dois sexos.Paulo então este meu pensamento está errado? Entendi aqui que um bissexual é alguém que gostaria de ser uma coisa, mas resolve ser outra só para agradar a sociedade(incluindo seus familiares).Se entendi errado por favor me corrija.

Abraços e boa semana!

Odele Souza disse...

:-)
Abraços Paulo e Raul.

PS.Li o texto mas confesso, não tenho, neste momento, capacidade para o comentar.

Paulo disse...

Olá Borboleta!

Gostei muito do teu comentário que traduz inequívocamente o ser humano que és, igual a ti própria, imparcial perante aqueles que apontam o dedo desmesuradamente sobre a diferença, quando a mesma, não é, nem mais, nem menos do que a igualdade de se ser humano.
A vida caracteriza-se sempre pela diversidade.

Quanto às mudanças, sim, mudar já mudei, mas há ainda muito a fazer e a arrumar, com o dia-a-dia do trabalho à mistura. Com tempo vamos lá...

Fico feliz por já te encontrares em Cascais e desejo-te profundamente que te sintas bem. É provavel que a vida aqui seja diferente da vida na Covilhã, mas tu és sempre tu, é claro.

Pelo que percebi vais casar, certo?
Olha, desejo-te toda a sorte e felicidade do mundo.

Beijo esvoaçante para ti.

Paulo disse...

Maria Dias

Este texto não foi redigido por mim, mas sim por uma grande, enorme e eterna amiga, que já existia e eu não sabia...

Felizmente os nossos caminhos encontraram-se e a nossa amizade está em perfeita e permanente lua de mel, sim porque na amizade, assim como no amor, pode existir lua de mel também...

Ser homossexual é ser humano e não se trata de uma opção. Nasce com as pessoas, que se apercebem mais cedo ou mais tarde que sentem atracção pelo mesmo sexo. Algo que não podem mudar nunca. É como nascer louro, moreno, de olhos azuis ou de olhos castanhos.

Por isso para mim, ter um amigo homossexual é tal qual como ter um amigo heterossexual ou bissexual.

Ser bissexual é ser alguém que sente atracção por ambos os sexos, com intensidade igual, maior ou menor por um ou por outro.

Costumo brincar e dizer que ser-se bissexual é ter todas hipoteses em aberto. :)

Por isso Maria o seu entendimento não está correcto, o que é muito natural. Não tem de saber tudo, não é?

Um beijinho muito grande e apertado e que a nossa amizade seja sempre também uma eterna lua de mel...

Paulo disse...

Odele

Retribuo o abraço e deixo-lhe um beijinho enorme para Si e outro para Flávia.

Quanto ao post, quando estiver na disposição de o ler, ele estará aqui para si. Nem sempre estamos inspirados para fazer comentários.

Maria Dias disse...

...Sabe Paulo de todos(héteros,bi ou Homo)a bissexualidade é a mais curiosa delas...Se sentir atraído por ambos os sexos?rs...Acho que pessoas assim não se sentem nunca solitárias não é mesmo?Sabe...Antes, pensava que ser homossexual era opção até que meu amigo conversou comigo e me disse o mesmo q você...Ele disse que a pessoa nasce assim e não tem como mudar a natureza...E então eu também passei a dizer que não é opção ser homossexual ou bi ou mesmo heterossexual mas um fato.Nascemos assim e ponto e quem somos nós para julgar?Só nós sabemos o que vai dentro de nós!

Beijinho querido e uma boa semana para todos do Sidadania!

Obrigada pela

M. disse...

Hoje vou responder aqui à Maria dias, não pude deixar de ler a alusão à bissexualidade, talvez no texto não me tenha explicado bem; na realidade o que queria dizer é que a bissexulalidade existe claro mas é algo mais complicado e não foi aqui desenvolvido. O termo foi empregue apenas para explicar que muitos homossexuais optam por uma "falsa" bisexualidade para mascarar a sua homossexualidade aos olhos dos outros; ou seja mantêm uma relação com uma pessoa do sexo oposto para desviar a atenção da sua verdadeira natureza. No fundo sou dA opinião da Maria dias, a bisexualidade confunde-me, sinto-a como uma espécie de traição à própria condição da pessoa, uma negação quase.

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E Paulo, está a ser a melhor lua de mel de sempre :))

beijos para aí

Maria Dias disse...

Oi M...

Muito obrigada por se preocupar em me exclarescer o post.Então concordamos no ponto da "falsa" bissexualidade.Mas sabemos que existem pessoas que podem se apaixonar por ambos os sexos.No mundo artístico muitas pessoas já se confessaram assim...Mas existe mesmo o outro lado...Para mim muitas pessoas usam e abusam dos outros, para esconderem seus verdadeiros anseios e desejos.Isso sim é muito triste e covarde...E uma bissexualidade forçada.

Abraços

Maria Dias

f@ disse...

Cada ser humano deve ser fiel aos seus sentimentos e viver plenamente...
A hipócrisia e a mentira e descriminação são males terriveis mas menores se cada um viver com sente...deixando para tráz os mais "limitados "
è dificil mas com força tudo se empurra e anda... beijinhos das nuvens