Sozinho parti...


Se o medo da morte é inerente á condição humana, o seu último aspecto é, seguramente, o medo de morrer sozinho.
Esta é a história que hoje vamos partilhar convosco.
Chamemos-lhe João. Assumiu-se como homossexual ainda novo e foi expulso de casa pelos pais que nunca mais lhe falaram. Tinha um irmão mais novo, que emigrou, a quem sempre tentou ajudar mas que também lhe acabou por virar as costas.
Um dia João descobre que é seropositivo, procurou esconder de todos o que o rodeavam, levava uma vida normal, trabalhava, tinha o seu próprio apartamento, tinha amigos e tinha um amor na sua vida. Há medida que a doença se foi agravando o parceiro abandonou-o e ele acabou internado num hospital público. Esteve internado durante muito tempo, ninguém o visitava. Faleceu...completamente sozinho.
Apenas um numero de telefone, na sua ficha hospitalar, uma amiga no local onde trabalhava . Ninguém sabia da sua doença, mas numa acção solidária os antigos colegas compraram-lhe roupa e pagaram o funeral. Teria sido sepultado como indigente já que ninguém reclamou o corpo.
A família provavelmente não sabe que ele morreu, ou se soube que estava gravemente doente também não se importou. Esta realidade é infelizmente muito frequente.
Que espécie de pais e irmãos são estes, que nem na hora da morte perdoam (o quê não sei)?
Que espécie de companheiro abandona o outro no momento que este mais precisa de ajuda?
Que espécie de sociedade somos nós que compactuamos com estas situações?
A história é real, e omitimos o nome verdadeiro bem como o nome da instituição onde faleceu, para podermos colher mais testemunhos, daqueles que ainda estão vivos e aos quais vamos dando o apoio possível.
Por muito que nos choque o abandono nos momentos em que mais precisamos dos outros, por considerarmos que somos superiores aos animais aos quais chamamos irracionais, procedemos de maneira semelhante. Semelhante mas muito mais cruel, uma vez que os animais irracionais doentes e fracos ficam para trás da manada e rapidamente são mortos pelos predadores, servindo como alimento a quem dele necessita evitando que outros animais saudáveis sejam mortos. Nós damo-nos ao requinte de prolongar a dor e mesmo que o nosso semelhante queira acabar com o sofrimento pedindo que lhe dêem uma morte digna e sem dor evocamos princípios éticos e morais para o não fazer.
Inventamos deuses e o pecado, inventamos a divindade da vida que só pode interrompida por vontade do criador, mas somos incapazes de pôr fim à mesma para evitar o sofrimento do nosso semelhante. Ironicamente, quase que aceitamos como normal um assassinato a sangue frio num assalto a um banco, a um supermercado ou a uma gasolineira, por um punhado de euros.
Afinal onde estão os sentimentos que caracterizam a raça humana? Escondidos no fundo da nossa consciência colectiva e que só saem à rua quando a vergonha daquilo que aqueles com quem convivemos possam pensar se manifeste.
A revolta que sinto, é comum a muitos dos que nos lêem. Longe da perfeição ou de ser um iluminado, quanto gostaria de viver num mundo com mais amor ao nosso semelhante. Felizmente aqui e ali encontramos exemplos desse mundo que almejamos. Resta a cada um de nós a esperança de podermos contribuir mesmo que modestamente, para que possamos aceitar o nosso semelhante como ele é, sem olharmos à cor da pele, às preferências sexuais, crenças religiosas ou outros factores que nos fazem diferentes uns dos outros.

Texto conjunto de Isabel e Raul

11 comentários:

Olhos de mel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Olhos de mel disse...

O mundo está cheio de casos assim, infelizmente! Muitos adolescentes, quando se descobrem homossexuais cometem suicídio; por serem renegados pela família, por se condenarem e até pelo medo das exclusões sociais, etc.
Essa rejeição ocorre, a maioria das vezes, por desconhecimento de que ninguém é homossexual por opção. Por puro preconceito, por se achar acima de quaisquer coisas, por se acharem perfeitos. Mas acredito que o amor é superior a tudo! E onde fica o amor materno e paterno, quando rejeita o próprio filho, porque não reza na mesma cartilha?
Bom fim de semana! Beijos

sideny disse...

Quantos e quantos morrem sozinhos, nos hospitais.
porque as familias não querem saber, os amigos que nunca o foram, afastam-se deles.
conheci alguns.
não preciso ser homossexual para acontecer isso.
beijocas

Paulo disse...

"...Resta a cada um de nós a esperança de podermos contribuir mesmo que modestamente, para que possamos aceitar o nosso semelhante como ele é, sem olharmos à cor da pele, às preferências sexuais, crenças religiosas ou outros factores que nos fazem diferentes uns dos outros."

Porque o Mundo é sinónimo de Diversidade.

Porque a Diversidade deverá primar sempre pelo respeito da condição humana em primeiríssimo lugar.

Porque somos gente, e sentimos, e sofremos e muitas das vezes partimos com a certeza de que para muitos, não chegámos sequer a chegar.

Porque nos vedaram e existência.

Um abraço

setesois disse...

Olá
UMA CAMADA DE ATENÇÃO, JÁ QUE SOU QUASE ANALFABETO, POSSO NÃO SER BEM ATENDIDO, AOS QUAIS PESSO AS MINHA SINCERAS DESCULPAS, E NAS DUVIDAS SE AS TIVEREM QUE ME DIGAM POIS TEREI O MAIOR PRAZER EM ME TENTAR EXPLICARAR NA MEDIDA DO POSSIVEL
BEM-HAJA


Por muito que nos custe, por mais voltas que demos, estes casos vão ser existir e cada vez com maior visibilidade, mesmo o que nos vem ler, o que vos vêem ler quero dizer, por muito que isso me custe vai haver sempre essa malvadez da parte dos que pensamos que gostam de nós.
Tomo como exemplo o que já foi relatado aqui algumas vezes, ou seja o de sermos abordados na rua por alguém, que nos vai dizer olhe eu tenho sida e para não roubar peço que me ajude, E.C.t , qual é a nossa reacção, pergunto eu, muitos de nós dirão que fazem isto ou aquilo mas sempre pelo lado positivo, mas eu não acredito neles, e quase garantia que 90 por cento das pessoas fica a pensar mal dessa pessoa e o manda para baixo de braga, eu já fui algumas vezes abordado nesse sentido, tive sempre a mesma atitude, não ajudo monetariamente, já que é o que mais pedem, se tem fome dou de comer, nunca ajudo com €€ até por que é o que menos tenho devo dizer.
Não tenho problema algum em ter amigos que podem ter outros gostos sexuais que não os meus, não me faz confusão alguma ter uma amigos homossexuais, até porque isso não me diz respeito algum, e devo dizer que até tenho alguns na família ainda que afastados, devo dizer que não sou nada de preconceitos, até porque estou muito apaixonado por uma prostituta, devo dizer que já convivi com pessoas seropositivas, uns que já não estão entre nós, e das quais jamais deixei de ter a mesma atitude que tinha no antes.
Mas acreditem ou não para a maioria das pessoas para a grande maioria, isto vai continuar muito tempo, e as pessoas seropositivas enquanto isso for segredo vão ter amigos, quando o partilharem vão perder os que pensavam ser amigos, e acreditem ou não, até muitos dos que vos visitam o deixavam de ser. Porque a sida mata e isso ninguém fica indiferente e vai sempre pensar quem aquela pessoa pode lhe fazer mal, ainda que seja só lá no fundo.

Abraços e desculpem qualquer coisa se fui indelicado

Fernando Moreira

Maria Dias disse...

Estas pessoas são vazias...Orgulhosas,fúteis(pensam só nas aparências e no q os outros vão pensar)aonde q um filho seria diferente do outro numa situação destas?Estamos falando de amor de pais para filho....Muito triste morrer assim, só e sem um mínimo de calor humano.Mas sei q existem pessoas assim na maioria das vezes, as pessoas diante das dificuldades preferem virar as costas.É mesmo uma pena mas existem pessoas assim.

Beijos em todos q passam por aqui.

Maria

Arnaldo Reis Trindade disse...

"Porque a Diversidade deverá primar sempre pelo respeito da condição humana em primeiríssimo lugar."

Pois sinto e vejo isso o tempo todo, sinto na pele por não ter essa tal de "cor" que tantos falam, já que sou decendente de portugueses,espanhois,italianos,africanos e talvez mais alguma que não saiba e vejo essa diversidade por morar em um país que por mais que o povo seja de raças,cores e crenças diversas, mais diversas do que na maioria dos outros países, ainda a o preconceito, maldita palavra que destrói famílias inteiras e consequentemente milhares de vidas.

Belo texto, apesar de contar algo muito triste e quase irreal, aos olhares de sonhadores como eu, mas que na verdade é tão real nesse mundo cruél em que vivemos e que de certa forma, foi criado por nós ou alguns de nós.


Abraços

Fatyly disse...

Primeiro os parabéns por este texto muito bem redigido sobre o flagelo das sociedades modernas.

Depois subscrevo na integra as palavras do Fernando Sete Sois e sei, porque o conheço pessoalmente e porque o estimo muito, que é uma pessoa (como lhe digo muitas vezes) de outro planeta pelo seu grau de humanismo, bom senso, amigo do seu amigo por quem tudo faz, com uma família magnífica...enfim tenho o enorme pazer de o ter como amigo de longa data.

Voltando ao assunto do texto: é uma realidade e posso contar-vos um exemplo na minha família que se passou há 15 anos.
Um primo meu não era homossexual mas toxicodependente e sempre ficou com a mãe à qual lhe fez a vida negra. Além da agressão tirava-lhe os óculos e só lhos dava se ela lhe desse dinheiro para a droga. Os irmãos e até alguns familiares, inclusivé eu, tudo tentámos para que se tratasse. Nada resultou e os irmãos começaram a proteger a mãe, levando-a para a casa deles e mais uma vez tudo fizeram para ele fosse também lá comer, vestir-se mas não, a droga e o bando com quem andava falavam mais alto e desaparecia dias e semanas a fio. Fez tudo o que a marginalidade previa. Mas mãe é mãe e além de ser muito doente voltava a casa porque o "seu menino" podia não ter comido ou porque precisava dela.
Entretanto a minha tia morreu, o meu primo desapareceu e os irmãos mais uma vez tudo fizeram para o encontrar. Nada, até que um dia...
Estava internado num hospital de Lisboa, muito longe de onde vivia(viviam).
Em Lisboa moravam dois irmãos e o pai separado da mãe há muitos e muitos anos e com os quais não havia qualquer relacionamento, ou seja a mesma família em dois ovos diferentes.
Pus-me a caminho e não me deixaram vê-lo, porque além da Sida, o mais grave era que estava tuberculoso, num estado lastimável e num total isolamento. Deixei o que levava e dei logo a informação aos que viviam longe e fui pessoalmente ter com as três cabeças ôcas que viviam em Lisboa.
Reconheço que ele fez coisas dantescas que nem vos passa pela cabeça, fiz-lhes ver que entendia tudo isso que não é nada fácil, mas tinha chegado a hora de de reconciliarem porque segundo os médicos tinha apenas dias de vida. Fica agora ao vosso critério e...vieram os outros irmãos que se juntaram ao pai e aos dois irmãos e o meu primo não morreu sózinho mas rodeado, em paz consigo próprio e com os seus mais chegados, inclusivé os três filhos já além adolescentes de três mulheres também elas ligadas à droga(não vale a pena contar os pormenores).

Podemos revoltarmos por morrerem sózinhos, não falo do caso que expõe, longe disso, mas quantos há que nem amarrados aceitam um tratamento, aceitam a família, etc, etc.
Quantos há que pela maldita droga são capazes de tudo e por vezes os familiares directos estão igualmente doentes emocionalmente e fisicamente? Nesses casos tem que haver alguém mais distante (neste caso fui eu) que consiga conciliar as hostes para que morra em paz e os que ficam possam sossegar com os seus "revoltantes demónios interiores".

É complicado e cada caso é um caso, embora reconheça que na hora de aperto todos nós aprendemos que afinal a maioria dos amigos e até familiares viviam de fachadas onde por vezes a verdadeira amizade e humanismo vêm quase sempre de "desconhecidos".

Um enorme abraço e obrigado por esta partilha e desculpem se fui extensa demais:)

M. disse...

É daqueles textos para se permanecer em silêncio. Para serem meditados. Para serem absorvidos.Para serem compreendidos. Para que haja certeza que se nos virmos rodeados por uma situação semelhante teremos a reacção oposta e daremos tudo para que todos os Joões do mundo não tenham de passar por um horror destes. E que mesmo estando de fora, se observarmos um drama igual perto de nós tentemos intervir para sensibizar as pessoas que o doente em questão continua a ser o mesmo ser humano que tanto amavam.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Raul
Já li umas quantas vezes este texto e tenho dificuldade em comentá-lo. Dói demais representar na mente um cenário como este que põe em causa a nossa evolução e as nossas capacidades afectivas.
Como se pode abandonar alguém fragilizado e ainda mais quando se é pai ou mãe aqueles que supostamente nunca deveriam deixar-nos sós?
Demasiado amargo e doloroso como só a solidão pode ser.

Abraço

Biby disse...

Olá Raul só hoje me dei conta que tinhas publicado o nosso texto no Sidadania 2.
Beijinhos
BIBY (Isabel)