Flavia, a Princesa Adormecida

-Avô…aki também tem a menina na cama, ela é amiga? Pergunta o meu neto de dois anos referindo-se ao Sidadania II. A imagem de Flavia na cama que tenho nas barras laterais de ambos os blogues despertou-lhe a atenção.
-Sim é amiga. A menina chama-se Flavia e está doente não fala. Aqui começo eu a divagar e a fazer uma história, misturando que Flavia é como a branca de neve, uma princesa adormecida que espera o beijo do seu príncipe para voltar à vida.
É preciso ter imaginação para ligar as duas histórias, mas o certo é que resultou, e entre os favoritos de uma cabecinha com pouco mais de dois aninhos a história da menina que está na cama é pedida frequentemente.
É meu costume quando ponho uma historinha eu ir narrando o que se está a passar, e assim consigo estabelecer o diálogo com o meu neto, que vai aprendendo novas palavras e desenvolvendo o seu poder de comunicação verbal. É difícil manter a atenção de uma criança de dois anos por muito tempo, mas com esta técnica tenho obtido algum sucesso. Basta uma pequena paragem e aparecem de imediato outros afazeres como pegar num brinquedo e acontece a quebra de comunicação. Não é por muito tempo pois volta para pedir nova historinha. Entretanto abro o blogue e quando ele volta e vê a fotografia de Flavia novamente lá vêm mais perguntas.
-A menina está acordada avô…ela não fala? Lá vou dizendo que não, e depois acrescento, que ela ouve e quando uma porta bate ou o cão ladra ela assusta-se.
- O cão é mau assusta a menina.
-Não, o cão não é mau. Mau é o homem que pôs uma coisa no fundo da piscina e que puxa os meninos para o fundo e podem morrer.
A conversa continua animada, e eu abro a página de Flavia e vou-lhe mostrando as fotografias que lá estão e faço um comentário a cada uma. Vejo a imagem do ralo da piscina e digo que é por lá que o homem mau tira a mão que agarra e puxa os meninos para o fundo. Chego ao post que tem o slide show que mostra várias fotografias de Flavia desde bebé e numa fotografia que ela está com um vestido branco ele diz: - A menina é a princesa que está a dormir. Quando passa uma fotografia com o Mckey, o Donald e o Pateta ele nota a falta do Pluto e diz:- O Pluto não está, foi morder o homem mau que fez mal à menina. Eu digo-lhe, que não, e que o príncipe é que vai vir para acordar a menina e que depois com a sua espada vai castigar o homem mau, para ele nunca mais fazer mal às crianças que vão à piscina tomar banho.
Ele continuava sentado na minha cadeira de braços, olhando os slides atentamente e veio o soninho e ele fechou os olhos. Peguei-lhe ao colo e levei-o para a cama meio adormecido. Quando o deitei ele disse: Avô fica ao pé de mim para não vir o homem mau que fez mal à menina. Deitei-me abraçado a ele, respondia com curtas frases ao que me ia perguntando e adormecemos os dois. Não sei se sonhou com a princesa adormecida, mas de vez em quando fala-me da menina na cama e eu ponho o slide show que está no blogue de Flavia, e agora é ele a contar-me a história que está gravada na sua cabecinha, conforme as fotos vão passando.

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Esta fotografia de Flavia, é recente e foi-me enviada por sua mãe. É actual e tem por titulo "O Ar Triste de Flavia" . Creio que é uma fotografia inédita de Flavia e publicada pela primeira vez em blogue ou outro meio de comunicação social. Aqui neste texto em que é mais uma história de crianças, com vista à prevenção de acidentes em piscinas que Odele mãe de Flavia defende, eu vou dar outro nome à fotografia "O Ar Triste da Princesa".

Voltarei a escrever com esta fotografia como titulo, mas apresentando o drama real desta jovem de vinte anos de idade, a qual ao dez anos de idade por ter tido seus cabelos sugados pelo sistema de sucção de uma piscina, que estava sobredimensionado para o tamanho da piscina, ficou em coma vigil e assim continua. Durante os dez anos de coma sorriu uma única vez e sua mãe captou o momento.

O seu aspecto actual é este que demonstra tristeza.

Este texto eu dedico a Flavia e sua mãe Odele que são a razão para que o mesmo fosse escrito. Dedico-o também a todas as crianças que foram vitimas de acidentes em piscinas e parques aquáticos. Finalmente dedico-o ao meu filho, que sobreviveu a um afogamento silencioso quando tinha cerca de três anos. O que não aconteceu por ter sido agarrado a tempo deixou marcas que ainda hoje persistem. Talvez este episódio me ajude a compreender o sofrimento de Odele e de outras mães e pais cujos filhos foram vitimas de um acidente e os perderam ou os deixaram incapacitados por toda a vida.

Um abraço de Raul Rudoisxis

10 comentários:

Paulo disse...

Raul
Comovente este post dedicado a Flávia, a princesa adormecida. O caso de Flávia está para sempre no meu coração, por tudo aquilo que representa. O sofrimento inconsciente de Flávia associado à ausência dos seus sentidos, a dôr de Odele durante tantos anos e a sua luta constante para que seja feita justiça, justificam este e todos os posts do mundo. Nunca é demais manter viva acesa a chama da solidariedade e da esperança para com Flávia e para com Odele, sua super mãe.
Um abraço Raul.
Um beijinho abraçado para Flávia e outro para Odele.

Odele Souza disse...

Raul,
Está lindo o teu texto e muito obrigada por tê-lo escrito, mais uma vez divulgando o caso de Flavia. Acredito que ao lutar pelos direitos de Flavia e alertar para o perigo dos ralos de piscina, estou ao mesmo tempo exercendo a minha cidadania (E a de Flavia) Mas além disso acredito que muitos outros acidentes iguais a este que destruiu a vida de Flavia, possam ser evitados, pois ao mostrar o perigo desses ralos, percebi que muitas pessoas nunca tinham ouvido falar que ralos de piscina oferecem perigos. Se estiverem instalados de forma errada, oferecem sim, grande perigo para os usuários, adultos ou crianças, sendo que a realidade tem mostrado que as crianças tem sido as maiores vítimas.

Quando os blogs escrevem sobre o caso de Flavia estão me ajudando na minha luta por justiça, ao mesmo tempo que mais e mais pessoas ficarão sabendo que ralos de piscinas podem ser perigosos. Mais uma vez Raul, MUITO OBRIGADA.

Um beijo meu e de Flavia pra você e seu netinho.

Leila disse...

Bom avô Raul,

que bonita homenagem você presta para Flavinha, a nossa princesa adormecida. Fico a imaginar teu neto em teu colo, a fazer perguntas e o amigo a responder, com enredo, para melhor compreensão da criaturinha.
Amigo Raul, também meu neto Hector, em dezembro de 2002, passou por um afogamento. Não teve sequelas, felizmente. Hoje é um miúdo esperto e danado demais da conta. Nos amamos muito. Ele nasceu no dia 2 de março, porém, esta avó que relata o caso, comemora no dia 22 de dezembro, quando saiu ileso do acidente.
Estaremos eu, você e todos os amigos de Flavinha, fortes para sermos solidários com a luta de nossa amiga Odele.
Estarei solidária com o amigo e com sua luta pela vida.
Receba meu forte abraço.

sideny disse...

raul
e com grande tristeza que li notro post o caso de flavia, pois pode acontecer a uma mae que tenha um filho.
imagino o sofrimento da mae da flavia(nem quero pensar que me podia acontecer ao meu filho).
por isso quero mandar um grande bej a esa mae coragem, e a sua querida filha,e que nunca deixe de lutar por ela.
bei para ti,e coragem para elas as duas.

sideny disse...

e que sejam julgados os responsaveis pelo acidente de flavia.
bej

peciscas disse...

É difícil Raul, ler o teu texto, sem que a emoção nos assalte.
A ternura com que falas da Flavia ao teu neto, ao mesmo tempo com a sensibilidade necessária para não chocares o menino, sem deixares de lhe dar a conhecer uma história real, são tocantes.
Este texto mostra a grande dimensão humana que já te conhecia e mais uma vez se comprova.
E essa foto mais actual da Flavia é um documento que, só por si, deveria mexer com o coração de muita gente que, perante este caso, só sabe defender interesses mesquinhos e tentar, por todas as vias, fugir à punição que terá de sofrer.Estou a falar dos responsáveis pelo acidente na piscina.
Como grande amigo da Flavia e da Odele, agradeço-te mais este elo que colocaste na corrente que, dia a dia cresce e que, estou convicto, irá dar resultados.
Um abraço para ti.

RAUL disse...

Vou tentar num só comentário,responder a todos.Pesciscas, obrigado pelas tuas palavras
em relação ao texto.Há um grande numero de acidentes em piscinas e parques aquáticos, com
crianças que perdem a vida ou ficam impossibilitadas de continuar a crescer tendo uma
vida normal como é o caso de Flavinha. Odele acha e eu também, que o drama de sua filha
pode contribuir para evitar novos acidentes. A Sideny encarna o drama imaginando que se algo
semelhante acontecesse ao seu filho, o que iria sofrer.Eu, que tive um episódio de
quase afogamento de meu filho,sinto o que Odele e tantas outras mães e pais, cujos
filhos tiveram acidentes em piscinas e morreram ou ficaram incapacitados para a vida.
A Leila vive esse drama também,embora seu neto tal qual meu filho não ficassem com
mazelas aparentes.O sofrimento inconsciente de Flavia, conforme diz o Paulo que refere
também o sofrimento de Odele, o qual perante a justiça não tem significado, chegando
Odele (que também é vitima) a ser indiciada como co-responsável no acidente,o que é
de uma desumanidade atroz,tem de ser suprimido, já que a justiça nunca poderá ser
feita pois não há dinheiro no mundo que pague esta dor.
Desde o momento que conheci o caso Flavia, que encarnei a causa como minha também.
Eu estou convicto que vivermos o sofrimento e as dores dos outros, nos ajuda a
libertarmos as nossas próprias dores tornando-as menores.Dedicarmos o nosso tempo e
as nossas energias a outras causas, faz com que não tenhamos tempo para alimentar a
fogueira do nosso sofrimento que não pararia de crescer se estivessemos sempre a
pensar nele.É uma espécie de terapia e faz-nos bem.
Continuarei a escrever textos sobre Flavia, tentando torná-los acessiveis e
agradáveis de ler a crianças de pouca idade.
Acho que uma grande maioria de adultos gostam de historinhas de crianças, quem
sabe para perpetuarem a eterna criança que há em nós.Se as historinhas tiverem
no seu conteúdo uma mensagem ela vai ser compreendida e terá impacto.
Que o acidente com Flavia não fique esquecido, e que toda a dor sofrida por
ela e todos os entes queridos, não seja em vão.Flavia está denunciando os perigos
escondidos em piscinas e outros lugares recreativos e de brincadeira, através de sua mãe
e de todos os amigos que aderiram à causa, e alertam para esses perigos através dos seus escritos e acções.
Um abraço para todos

Odele Souza disse...

Raul,

Passei para ler os comentários sobre este teu post e me encantei com teu próprio comentário ao final.

Obrigada Raul por você continar conosco. Concordo com você que ao olharnos para o sofrimento do próximo nos esquecemos um pouco do nosso próprio. É assim mesmo. E com isto vamos nos ajudando mutuamente, e poder contar uns com os outros, nos torna certamente mais fortes.

Um abraço meu e de Flavia pra ti Raul.

Fatyly disse...

Um post delicioso e em breve irei publicá-lo na minha cubata. Não digas que não, porque fa-lo-ei na mesma:)

Subscrevo todos os comentários e junto-me a vós.

Beijos

RAUL disse...

Fatyly
Obrigado pelas tuas palavras. Publica sim,eu ficarei contente e Odele também, pois é preciso alertar para os perigos escondidos em locais de lazer aquáticos, que têm vitimado muitas crianças e não só. Tenho andado arredado da escrita pois a minha saúde está como o dollar americano sempre a baixar.Vou dar uma espreitadela na tua cubata, coisa que não faço já há algum tempo com muita pena minha.
Um super beijão e muito obrigado por todo o apoio que tens dado ao Sidadania.És uma querida.