INTOLERÂNCIA AO EXERCÍCIO FISICO



A INTOLERÂNCIA AO EXERCÍCIO FISÍCO PODE DEVER-SE AO EFEITO DE UM TRATAMENTO ANTIRRETROVIRAL SOBRE AS FUNÇÕES CARDÍACAS

Uma quebra na rotina do exercício físico observada nas pessoas que tomam antirretrovirais, pode constituir uma manifestação prematura de uma disfunção cardíaca oculta, segundo um artigo/carta publicada na edição de Novembro da revista AIDS.
Os autores desta informação recomendam um exame cardíaco regular nos pacientes em terapia para detectar possíveis anomalias subclínicas e ajudar os médicos nas decisões clínicas, mantendo as pessoas com uma boa saúde cardíaca.

Os especialistas apontaram diversos motivos para a não adesão a exercícios aeróbicos em indivíduos infectados pelo HIV que fazem uma terapia antirretroviral (TARV), entre eles, o tabagismo, a anemia e a falta de uma boa forma física por viverem com uma doença crónica. Alguns fàrmacos anti-HIV, principalmente os inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleósido (ITRN), também estão implicados devido à acção oxidativa nos tecidos do organismo, incluíndo os músculos.

No princípio de 2008, uma equipa de investigadores franceses lançou uma outra hipótese e possível explicação para este fenómeno, quando registou uma menor tolerância ao exercício físico com ciclos de disfunção no ventrículo esquerdo num grupo de indivíduos com HIV. Neste estudo, os autores demonstraram ainda a conexão entre ambos os fenómenos. O estudo envolveu 16 homens com HIV (de étnia branca, com um índice de massa corporal [IMC] de menos de 30kg/m2 e com uma idade entre os 30 e os 50 anos) que tinham recebido terapia antirretroviral durante pelo menos 2 anos e que tinham controlado bem a doença (através da contagem de CD4 de 503 células/mm3 e uma carga viral indetectável em 2/3 dos participantes. Os autores deste estudo fizeram uma comparação com um grupo de 21 homens não infectados, agrupados por idade, tamanho, hábitos tabagísticos e nível de actividade.

A equipe realizou um electrocardiograma (ECG) em repouso aos participantes no estudo. Os pacientes com HIV revelaram sinais de disfunção cardíaca com maior frequência, especialmente problemas no ventrículo esquerdo durante a diástole (quando o ventrículo se enche depois de uma contracção). Foram observadas anomalias no refluxo sanguíneo em 56% das pessoas infectadas pelo HIV, contra 14% no grupo de control (p menos que 0,01).

Quando os participantes realizaram uma prova de esforço, nenhum indivíduo do sexo masculino (com ou sem HIV) apresentou sinais clínicos de isquémia miocárdia ou falta de fluxo sanguíneo no músculo cardíaco. No entanto, os homens com HIV demonstraram um menor rendimento em diversos indicadores da função cardíaca, mesmo quando ambos os grupos tinham níveis similares de consumo de tabaco e de actividade física, bem como os valores de hemoglobina média eram equivalentes.
O rendimento cardíaco (quantidade de sangue bombeado por minuto) máximo foi de 14% (p igual ou menor a 0,05) no grupo de indivíduos infectados no grupo de control. Assim mesmo, o ritmo cardíaco máximo foi 6% inferior no grupo de pessoas infectadas (p menos de 0,05), mas todos os pacientes apresentaram pelo menos 90% do valor normal para a sua idade. Os autores pensam, que isto vá contra a hipótese de que uma intolerância ao exercício físico se deve a um desvio do sistema nervoso central, encarregado de controlar o ritmo cardíaco.

Pelo contrario, os autores sugerem que a causa mais provável à intolerância ao exercício é a disfunção cardíaca oculta observada durante o ECG em repouso. No grupo de pessoas não infectadas, o volume sistólico (quantidade de sangue bombeado pelo coração num único ciclo de contracção) aumentou até chegar ao exercício de intensidade moderada, alcançando assim, uma meta. Nos homens infectados pelo HIV o volume sistólico aumentou e, posteriormente, diminuíu de forma gradual à medida que os participantes passaram do exercício moderado ao estado limite, o que indica um decréscimo do rendimento. Os especialistas assinalam a importância de este padrão ter sido observado de modo específico em homens que previamente tinham apresentado sinais de disfunção ventrícular esquerda em repouso.

Os autores também indicam que, em comparação com o grupo de control sem HIV, os níveis de oxigenação nos tecidos musculares , foram de uma forma significativa menores só em indivíduos infectados que apresentavam a disfunção cardíaca em repouso. Argumenta-se que esta falta de oxigenação é devida à disfunção cardíaca central e não à alteração do metabolismo do oxigénio no tecido, já que não houve diferenças entre as pessoas com ou sem HIV, em relação ao consumo de oxigénio consumido pelos tecidos durante o exercício. Num estudo anterior, sugeria-se que a intolerância ao exercício em pessoas com terapêutica antirretroviral, se devia a uma disfunção no tecido muscular periférico.

Reconhece-se que é necessário realizar estudos mais aprofundados para uma melhor compreenção das causas da disfunção cardíaca, a equipe de investigadores insiste num acompanhamento mais próximo dos indivíduos com terapêutica antirretroviral. " Deveria ter-se em consideração o risco cardiovascular e o exame cardíaco regular (incluindo ecocardiogramas e provas de esforço) dos pacientes com HIV com terapêutica, para conseguir uma detecção precoce, uma melhor prevenção e acompanhamento".
Tradução e composição: P.Serrano

Explicando a SIDA aos mais pequenos



O filho de um amigo meu com 6 anos perguntou-me o que era isso da SIDA. Fiquei pensativa... Como explicar por palavras simples a uma criança pequena algo tão complexo como a infecção VIH/SIDA. De repente recordei-me de uns desenhos animados da minha infância chamados “Era uma vez a vida” ... e respondi-lhe:
Dentro do nosso corpo existem policias (CD4) que são responsáveis pela defesa do nosso organismo. De vez enquando entram no nosso corpo uns bandidos (que podem ser vírus, bactérias, parasitas ou fungos) e andam à luta com os polícias. Um desses bandidos é um vírus chamado VIH, ele pode entrar dentro do nosso corpo de várias maneiras, e após a sua entrada começa a fazer estragos e a destruir tudo por onde passa.
Quando o nosso organismo fica muito debilitado dizemos que entrou em fase de SIDA ou seja os bandidos estão a conseguir vencer a polícia.
Os nossos polícias são muito fortes e tentam de todas as maneiras matar o bandido VIH só que ele é muito esperto e consegue escapar, esconder-se e reproduzir-se. Enquanto a nossa polícia anda preocupada atrás do VIH outros bandidos aproveitam-se disso e começam também eles a fazer estragos na nossa saúde são as chamadas doenças oportunistas... Com tantos ataques o organismo adoece gravemente e a pessoa pode morrer.
-E não há comprimidos para matar o VIH?
- Os comprimidos não conseguem matar todos os bandidos mas conseguem mantê-los mais ou menos controlados e permitem que os nossos polícias recuperem as forças para continuar a batalha.
-E como é que o VIH entra no nosso corpo?
O VIH é um bandido muito particular, ele só entra dentro do organismo quando entramos em contacto com sangue infectado, através de relações sexuais sem protecção e de uma mãe infectada para o bebé. Não existe mais nenhuma forma de contágio por isso podes conviver no dia-a-dia com outras pessoas infectadas, brincar com elas, dar-lhes beijinhos, almoçar com elas, nadar na piscina... não há problema.
No teu dia-a-dia apenas tens de ter o cuidado de não tocar em sangue de outras pessoas. Se vires por exemplo um colega da escola a sangrar deves chamar de imediato um adulto e não tocar no sangue sem luvas.
-E existem meninos e meninas com o VIH?
-Existem sim. Como te disse o VIH pode passar da mãe para o bebé durante a gravidez, no parto ou quando a mãe dá de mamar ao bebé. Mas hoje em dia os médicos já sabem como fazer para o evitar.
Colaboração de Isabel Pinto

RESPOSTA IMUNITÁRIA NATURAL


A resposta imunitária natural revelou-se incapaz na prevenção de uma reinfecção do HIV. As conclusões de um estudo americano revelaram implicações no desenvolvimento de uma vacina contra este vírus. Um grupo de investigadores americanos determinou que a resposta inicial de anti-corpos que o sistema imunitário produz depois da infecção inicial, poderia não ser suficiente capaz para proporcionar uma protecção perante uma infecção posterior a um vírus do HIV diferente. Os dados que se publicaram na edição de Dezembro do " Journal of Virology", poderiam ter implicações significativas no desenvolvimento de uma vacina contra o HIV. A reinfecção, é uma situação em que um indivíduo já infectado, adquire uma segunda estirpe do vírus. Estudos recentes sugerem que 5% das pessoas infectadas podem reinfectar-se. De qualquer forma, continua pouco claro se a reinfecçao se dá em indivíduos com respostas imunitárias especialmente débeis ou se as respostas imunitárias desenvolvidas durante a infecçao natural do vírus, são de forma geral, inadequadas numa prevenção de uma infecção posterior. A investigação no campo da imunologia, levantou a questão de que a resposta imunitária humoral produz vários tipos de anticorpos específicos contra o HIV, mas só um pequeno número deles são capazes de unir-se realmente ao vírus e neutralizá-lo. Estes anticorpos, de certa forma selectivos, que podem evitar com êxito que o vírus infecte células, são denominados como anticorpos neutralizantes. Os anticorpos que podem neutralizar de forma eficaz várias estirpes diferentes do HIV, denominam-se anticorpos amplamente neutralizantes. De qualquer forma, estes são muito raros e até agora só foram identificados num número muito reduzido. Um grupo de investigadores do Centro de Investigação do Cancro e da Universidade de Washington em Seattle (EUA), comparou os níveis de anticorpos neutralizantes específicos do HIV em 6 mulheres reinfectadas num período de 1 a 5 anos depois da infecção inicial, com 18 dos controles com factores de risco similares mas sem reinfecção. Mesmo nas mulheres reinfectadas, que tiveram menos anticorpos neutralizantes específicos ao HIV que o control, aproximadamente 1 ano depois da infecção, não se observaram diferenças significativas na amplitude ou potencialização destas respostas pouco antes da segunda infecção. De facto, 4 das 6 pacientes tinham respostas de anticorpos neutralizantes específicos ao HIV, relativamente amplas e potentes. Além disso, análises posteriores das variantes virais que provocaram a reinfecção, demonstraram que não havia uma resistência inerente à neutralização de anticorpos. O facto das 6 pacientes terem anticorpos específicos neutralizantes do HIV que poderiam ter neutralizado as estirpes virais antes da reinfecção, levou os investigadores a pensar que o nível destes anticorpos provocados durante a infecção natural pelo HIV, poderia não ser suficiente para o bloqueio de uma infecção posterior pelo HIV. " Uma vacina eficaz contra o HIV, necessitará portanto, de provocar respostas de anticorpos neutralizantes específicos do HIV mais fortes do que aquelas que se produzem durante a infecção natural. " De facto, este é o caso de algumas vacinas virais, como por ex. a vacina contra a hepatite B ou o vírus do papiloma humano, que provoque níveis equivalentes ou superiores de anticorpos neutralizantes específicos contra o vírus que os que são produzidos durante a infecção natural"
Fonte: Grupo de Tratamentos VIH
Tradução e Composição: Pedro Serrano

Osteoporose e o VIH


Segundo um novo estudo, o ácido zoledrónico mostra-se eficaz no combate à osteoporose (perda de tecido ósseo) associada ao HIV. E diversos estudos indicam que os indivíduos infectados pelo HIV, apresentam uma maior predisposição de sofrer de osteopenia e osteoporose. Mesmo considerando que o envelhecimento natural, como a menopausa, são factores de risco correntes, também se suspeita que o tratamento com anti retrovirais e a própria acção do vírus pode provocar uma perca da densidade mineral óssea (DMO). Um estudo publicado na 2ª edição de Janeiro da revista AIDS, uma injecção única de zoledronato (ácido zelodrónico, Aclasta R na Europa e Reclast R nos Estados Unidos) melhorou consideravelmente a saúde óssea em indivíduos portadores do vírus da SIDA. O zoledronato é um medicamento da família dos bifosfonatos, indicado e aprovado, entre outras indicações, para o tratamento da osteoporose em mulheres pos menopáusicas e em homens com pré-disposição e alto rico de fracturas. Para avaliar a eficácia do princípio activo do zoledronato intravenoso no tratamento da osteopenia e da osteoporose associadas ao HIV, os responsáveis pelo estudo realizaram um estudo de um período de 12 meses, duplo cego, com a admnistração aleatória e controlada com placebos, em que se admnistrou uma dose única de 5mg de zelodronato ou placebo por via intravenosa, a 30 homens e mulheres infectados pelo vírus, com osteopenia e osteoporose. Além da admnistração da dose de zoledronato ou do placebo, todos os participantes no ensaio/estudo recebiam diariamente suplementos vitamínios de cálcio e de vitamina D. A densidade da coluna lombar e dos ossos da bacia, foram medidos antes do início do estudo, assim como aos 6º e 12º meses de tratamento. Analisaram-se também os bio-marcadores do metabolismo ósseo no começo do programa terapêutico, 2 semanas depois e ao 3º, 6º, 9º e 12º mês. Entre outras análises, utilizou-se uma prova T de Student, para avaliar as alterações da DMO (densidade mineral óssea) e dos marcadores ósseos. Dos 30 indivíduos seropositivos (27 homens e 3 mulheres com uma idade média de 48 anos) que participaram no ensaio, a média das pontuações T no início do estudo, foram de 1-7 na coluna lombar e 1-4 na bacia. A média dos linfócitos T CD4 era de 461 cúlulas/mm3, 93% dos indivíduos apresentavam uma carga viral inferior a 400 cópias/ml, e 97% estava a fazer medicação antirretroviral. A DMO (densidade mineral óssea) absoluta ou ajustada por sexo, melhorou de forma significativa nos indivíduos aos quais foi admnistrado o zoledronato comparativamente ao grupo de placebo. Os marcadores de reabsorção óssea diminuiram de forma significativa ao longo do período do estudo com o zoledronato em comparação com a de control. Não se detectou nenhuma reação aguda, excepto num paciente que desenvolveu uma uveíte, uma inflamação ocular associada ao ácido zoledrónico, que respondeu à terapia. "Os investigadores concluíram neste pequeno estudo, que a admnistração anual de zoledronato, parece ser uma terapia eficaz e bem tolerada para a perda de tecido ósseo associada ao HIV"

Fonte:Grupo de tratamentos VIH
Tradução e Composição: Pedro Serrano

A SIDA DE HOJE

Falámos no texto publicado no “Sidadania Um”, algo sobre o passado e sobre a situação actual da SIDA hoje, que parece estar simplificada nas terapias com poderosos químicos que mantém o vírus controlado e mantêm o sistema imunitário forte.
Na verdade fizeram-se grandes avanços a nível terapêutico e é possível prolongar a vida de um infectado, sendo a longevidade do mesmo semelhante à de uma pessoa não infectada.
Algo que assustava as pessoas no passado era a quantidade de comprimidos que se tinham de ingerir num dia. Tendo iniciado a medicação em 1997 nunca fui dos mais azarados nessa quantidade de comprimidos para controlar o vírus e se bem me lembro o máximo que tomei foram 14 comprimidos dia. Actualmente tomo 8 comprimidos divididos por duas tomas diárias e não me preocupa em reduzir este número, pois a minha maior preocupação é com uma menor toxicidade da medicação e não com a conveniência das tomas. Poderia facilmente fazer o “Switch” para outra medicação, e inclusivamente optar por um comprimido por dia, mas não o quero fazer. Tenho a noção que os químicos utilizados são muito poderosos e acho que devo poupar o organismo de toxidade em detrimento da conveniência.
Mas vamos falar do tema actual de um comprimido dia como terapêutica, e do pensamento popular de que a SIDA já não é o terror de dezenas de comprimidos por dia para que o vírus seja controlado. Será esta a realidade?
Comparando as histórias de príncipes e princesas que finalmente casaram e viveram felizes para sempre, esta nova história de que se tem SIDA, toma um comprimido por dia e viverá sem problemas para sempre não tem o mesmo final feliz.
Para os novos infectados, é mais uma barreira derrubada, contra o inicio da medicação que durante um período de 3 ou 4 anos lhes dá a tranquilidade necessária para entenderem a doença e a compreenderem. Reduzirá os casos de desespero e tantas vezes de suicídio que aconteciam e vai proporcionar uma melhor adesão à terapêutica o que é fundamental para que se controle a infecção.
Depois começam a aparecer os danos no organismo que a medicação provoca. Os medicamentos outros que não os retrovirais estes pagos pelo doente, começam a ser necessários. Uns para controlar o colestrol, outros para os problemas de hipertensão, o coração começa a dar mostras de problemas e aí vêm mais comprimidos. O pobre do doente abre uma conta de “não poupança” na farmácia que a cada dia vai aumentando. O corpo começa a deformar-se devido à lipodistrofia e o ginásio começa a ser necessário, para minimizar os danos ou se tiver capacidade económica começa a fazer tratamentos com enchimentos e outros métodos, que em Portugal não têm qualquer participação do estado.
E ainda há quem diga que ter SIDA não acarreta despesas pois o estado fornece os medicamentos gratuitamente. Fornece apenas os retrovirais e mais nenhuns e é bom que o faça pois se isso não acontecesse 90% dos infectados não tomaria medicação as cargas virais não seriam suprimidas e seriam uma arma biológica na propagação da doença, pois de não infectantes se tiverem cargas virais indetectáveis passariam a infectar eficazmente quando as cargas virais atingissem valores altíssimos. Seria o genocídio de uma população e o aumentar o numero de infectados o que produziria uma proliferação em cadeia da doença.
A SIDA continua a ser uma doença com a qual nos devemos preocupar seriamente. A SIDA hoje não é uma simples infecção crónica viral é muito mais do que isso. Não existe cura actualmente e os cientistas procuram-na. Como tudo na vida tem um fim certamente aparecerá uma solução para erradicar o vírus. Será uma vacina ou um tratamento mensal , semestral ou anual, que mantenha o vírus adormecido e não infectante?
Essa será a SIDA do futuro e iremos falar sobre esse tema no blogue “Sidadania Memória”, que actualmente está vocacionado para as terapias anti HIV , logo que o tempo disponível para a escrita nos permita.

LIPODISTROFIA "O novo rosto da SIDA"

O tratamento anti-retrovírico permitiu uma redução da incidência e morbilidade das Infecções Oportunistas, uma maior supressão da replicação vírica, um aumento da sobrevida e diminuição da mortalidade em doentes VIH/SIDA.
No entanto esta mesma terapia trouxe inúmeros efeitos indesejáveis com repercussões na qualidade de vida dos infectados. Os principais efeitos adversos associados à HAART podem ser resumidos em 6 grupos:
-Morfológicos (lipodistrofia),
- Metabólicos (resistência à insulina, dislipidemia, hiperlactameia e alterações ósseas),
-Toxicidade hepática, pancreática e renal,
-Hematológicos (anemia e neutropenia),
-Neuromusculares (neuropatia periférica, síndrome neuromuscular associada ao VIH, miopatia),
-Reacções de hipersensibilidade.
Hoje vamos centrar-nos nas alterações morfológicas mais concretamente na síndrome de lipodistrofia que é basicamente uma alteração da disposição de gordura corporal que afecta cerca de 25 a 50% dos doentes infectados VIH/SIDA.
As mudanças corporais mais descritas tem sido a LIPOHIPERTROFIA que se caracteriza por uma acumulação anormal de gordura dorsocervical, aumento do volume dos seios, aumento da gordura abdominal e expansão da circunferência do pescoço (buffalo hump ou corcunda de búfalo) e a LIPOATROFIA que consiste na perda de gordura subcutânea na face, pernas, braços e nádegas e diminuição da gordura periférica.
Inicialmente a lipodistrofia foi associada ao uso dos fármacos IP contudo parece haver evidências destas alterações associadas ao uso dos INTR nomeadamente à Estavudina (d4T). No entanto não se sabe ao certo o que causa a lipodistrofia mas considera-se que tenha uma causa multifactorial ou seja é causada pela acção do próprio VIH, pela idade, factores genéticos, hormonais, factores imunológicos e pelo uso da HAART.
A síndrome de lipodistrofia pode ocasionar dificuldades psicológicas e emocionais nos infectados VIH como redução da auto-estima, percepção negativa da imagem corporal, evitamento de certos locais públicos como praia e piscinas onde o corpo está mais exposto, depressão, ansiedade, vergonha, impacto na vivência da sexualidade pois a pessoa sente-se menos atractiva sexualmente, medo da revelação forçada do diagnóstico pela associação entre o seu aspecto físico e a SIDA, e evitamento dos contacto sociais como forma de fugir ás perguntas relativas ao aspecto físico.
Têm sido feitas tentativas de corrigir as alterações lipodistróficas mas até agora com êxito limitado:
Uma das formas de evitar a lipodistrofia é evitando o uso de fármacos que a causam (pelo menos como primeira linha de tratamento) ou substituindo os fármacos implicados.
Outras indicações passam pelo exercício físico, dieta alimentar (hipocalórica), mudanças no estilo de vida (evitar fumar, beber álcool ou consumir drogas) uso de roupas que escondam ou disfarcem as alterações corporais e a correcção cirúrgica/cosmética que tem tido grande aceitação por parte dos doentes e significativa eficácia embora os custos sejam elevados e o Estado Português não comparticipe este tipo de intervenções. O alto custo destes procedimentos torna o seu acesso limitado à maioria dos doentes.
Também têm sido usadas intervenções farmacológicas mas com eficácia limitada e por vezes com efeitos adversos como é o caso da Metformina (gordura central), Rosiglitazona, Hormona do crescimento (gordura central), Pravastatina (gordura periférica) e Anabolizantes.
A lipodistrofia traz uma diminuição acentuada da qualidade de vida e parece contribuir para a redução da adesão à terapêutica, por este motivo esta síndrome requer uma abordagem multidisciplinar de várias especialidades como médicos, psicólogos, nutricionistas e profissionais de educação física.
Autor: Isabel Pinto

A SIDA e os outros




Doenças infecto-contagiosas como a SIDA têm levantado, mesmo em países desenvolvidos, inúmeras questões do ponto de vista ético, sanitário e relacional entre os infectados e os outros.É frequente questionar-se a legitimidade de um portador de HIV, por exemplo, exercer profissões como a de cirurgião ou cozinheiro, entre outras, pelo risco de contágio caso o sangue, proveniente dum corte ou dum arranhão, possa facilitar a transmissão a um paciente ou a umconsumidor dum determinado produto culinário. Também frequentemente se tem posto a questão se deverá, ou não, um médico prevenir um parceiro sexual em risco de contágio caso o paciente se decida por não dar a conhecer a sua condição.Estas questões, pese embora a sua pertinência pelo facto de tudo o que nos atormenta dever ser debatido, pecam, em meu entender, por um excesso de purismo e de fundamentalismo que não raras vezes perverte pela emoção a natureza do que de facto está em jogo.Não é toda a vida, ela mesma, um risco e não estamos nós sujeitos a cada instante, e a cada passo, a sermos feridos de morte por um dos múltiplos perigos que nos espreitam? Por quê então esta necessidade de segregação sombria que não elimina perigos e antes os concentra numa só imagem deixando todas as outras a descoberto? Não andamos nós em contacto permanente com pessoas cujo estado sanitário desconhecemos por completo? Será que deixamos, por isso, de utilizar equipamentos e infra-estruturas baseados apenas nestes receios?A resposta parece óbvia mas nem por isso consensual. Do meu ponto de vista, e porque considero que a minha pessoa não é assim tão valiosa e especial em relação a todos os que sofrem na alma e na carne muitas dores cruéis, aceito como naturais ao riscos da minha existência para os quais me preparo sem temores absolutos. A consciência cívica de cada um será sempre o grande motor da relação entre o indivíduo e os outros e, caso esta falhe, dificilmente os homens encontrarão práticas punitivas ou segregacionistas que eliminem todos os riscos de alguém para quem a sociedade deixou de lhe merecer respeito.Numa sociedade de risco admitir que um cozinheiro com SIDA é um potencial de perigo só porque exerce uma profissão em que, casualmente, se poderá ferir, esquecendo que essa pessoa é antes de tudo um ser humano que conhece os seus deveres para com os outros e logo utilizará todas as prevenções para não lhes transmitir a doença que transporta, é no mínimo grotesco. Porque este homem que precisa ser ressarcido dos danos causados contribuindo para a sociedade através da sua profissão, se for realmente um perigo pela ausência de valores comportamentais, ele será sempre um perigo quer seja cozinheiro ou não o seja. Quer tenha HIV ou não o tenha.Este cozinheiro português foi despedido mas, felizmente, vão-nos chegando exemplos doutras actuações em que, ultrapassadas as barreiras do excesso de zelo pelo estigma, se permite que os cidadãos infectados continuem o seu trabalho realizando-se e contribuindo para que outros vivam e se realizem também. É o caso do médico cirurgião israelita que, em situação de Sida, continuou operando, a uma média de 150 doentes ano, um total de 1.669 pacientes. Com precauções especiais nomeadamente através da utilização de luvas reforçadas, nenhum cidadão foi contagiado.Entretanto talvez fosse interessante conhecer quantos indivíduos, nesse universo de pacientes, foram vítimas de perigos não identificados com o HIV."

Texto de L.Soares

Gripe Visita Segura


Febre, arrepios, cefaleias, dores, fadiga, irritação ocular, tosse seca, obstrução nasal e rouquidão são os sintomas da famigerada doença contagiosa resultante da infecção pelo vírus influzenza: a gripe. Transmite-se de pessoa para pessoa de várias maneiras, quer por inalação de gotículas provenientes da tosse e dos espirros, quer pelo contacto directo com as secreções. A inalação destas partículas através do nariz e da garganta permite a entrada do vírus no organismo. Este começa a replicar-se destruindo a membrana mucosa do tracto respiratório provocando os sintomas.
Para evitar a transmissão, o contacto com os indivíduos infectados deve ser reduzido, lavar frequentemente as mãos com água e sabão, proteger a boca e o nariz quando se tosse ou espirra com lenços de papel de utilização única.
Após exposição ao vírus, este tem um período de incubação curto – de 24 a 48 horas – e a doença permanece cerca de cinco dias.
Terapêutica não farmacológica: repouso, alimentação rica em vitaminas (vegetais e fruta), ingestão de grandes quantidades de líquidos.
Terapêutica farmacológica: não existe tratamento eficaz, usam-se apenas medicamentos para alivio dos sintomas como analgésicos e antipiréticos, anti- histamínicos e descongestionantes nasais, antitussicos e expectorantes.

A complicação da gripe é a sobre infecção por bactérias sobretudo nos grupos de maior risco, podendo originar pneumonias graves.
Sendo muito contagiosa e com um pico de actividade maior entre Dezembro e Fevereiro, recomenda-se a vacinação durante o Outono para que os anticorpos atinjam o máximo nos meses mais críticos. A vacina persiste alguns meses, garantindo imunidade até Março ou Abril. Existem na farmácia uns medicamentos denominados de “preparados lisados bacterianos” e recomendam-se igualmente como prevenção conferindo igualmente grande imunidade. Estas prevenções diminuem a gravidade dos casos e mesmo a mortalidade.
Nos grupos a vacinar recomendam-se os indivíduos:
- crianças e grávidas com patologias especiais e crónicas (cardíacas, renais, pulmonares, diabetes)
- que tenham o sistema imunitário enfraquecido
- com idades superiores a 65 anos e os que inspirem muitos cuidados de saúde.
- portadores do VIH e cancro
- profissionais de saúde e outros com maior risco de contágio.


A gripe é visita segura todos os anos no Inverno. Mais vale prevenir.

NÃO OPORTUNISTAS NO VIH


A Terapia Antiretroviral de Grande Actividade TARGA conhecida também pela sua sigla em inglês HAART, fez com que as pessoas infectadas pelo HIV vivessem mais anos. As pessoas deixaram de morrer já que as infecções oportunistas consequência de um sistema imunitário deficiente ou quase inexistente, são combatidas uma vez que a imunosupressão era algo pertencente ao passado em que as terapias não estavam optimizadas e os poucos fármacos existentes na altura passavam a não surtir efeito devido ao desenvolvimento de resistências do vírus ao medicamento.
Não haja duvida que a terapia que incluía mais do que um medicamento de classes diferentes, foi um marco na história da SIDA, e graças a ela muitas vidas foram prolongadas por anos e anos , com uma aparente qualidade de vida. Também graças a ela as cargas virais desceram a níveis do chamado indetectáveis, e as pessoas infectadas deixaram de ser instrumentos de proliferação do vírus, quando esta situação se estabilizava por períodos de mais de seis meses.
Mas como nem tudo são rosas, e a SIDA continua a matar, de um modo mais subtil e disfarçado que não entra nas estatísticas de mortes causadas pelo HIV, agora os cientistas e investigadores estão-se apercebendo de novos cancros comuns nas pessoas infectadas e que são doenças que não estão incluídas na categoria das doenças oportunistas que definem o estado de SIDA.
Os linfomas não Hodgkin (LNH), cancro do colo do útero e o Sarcoma de Kaposi (SK), entre outras doenças oportunistas deixaram de ser comuns , mas cancros de pele, o cancro anal e outros que se pensa serem causados pelos mesmos subtipos do virus do papiloma humano , passaram a ter uma incidência muito maior em pessoas infectadas pelo VIH do que na população não infectada.
Entre doenças oportunistas consideradas definidoras do estado de SIDA e doenças não definidoras deste estado, detectadas em pessoas infectadas 71% eram cancros que não eram devidos a uma destruição do sistema imunitário.
Os factores que predizem este tipo de cancro, estudados em pessoas infectadas parecem ser devido a uma idade mais avançada e ser de etnia branca onde os cancros de pele são mais comuns. O certo é que com as terapias TARGA/HAART, o numero de cancros devido à imunosupressão vem baixando e os cancros não classificados como enfermidades oportunistas vêm aumentando de dia para dia e constituem a maioria de cancros em pessoas com o HIV.
Concluem os investigadores que as triterapias reduzem a incidência de cancros definidores de sida e que o impacto no outro tipo de cancros não é significativo. Pensam que o VIH através de alguns dos seus genes como o TAT, poderia ter uma acção directa e favorecer o desenvolvimento destas doenças, que nada têm a ver com a destruição do sistema imunitário.
Muitos mais estudos e muito mais investigação terá de ser feita até se encontrar o Calcanhar de Aquiles do hediondo vírus da Sida que tantas vidas tem ceifado. Até que isso aconteça resta-nos sobreviver.

O meu dia de aniversário


Acordei bem cedo. Viro-me e reviro-me na cama, mas as dores num corpo recentemente cortado com ossos serrados sobrepõem-se ao conforto de um leito quentinho quando toda a casa parece um gelo. O banho matinal começou por ser um suplício. A água bem quente do chuveiro amenizou o mau estar devido ao frio. Seguem-se as massagens com creme hidratante à perna onde tiraram a “Safena” para ver se a circulação sanguínea melhora e o inchaço desaparece. Olho para o relógio e pouco passa das seis horas da manhã. Os cafés estão todos fechados e necessito da minha dose de cafeína para acordar completamente. Ligo o Computador e vou dar uma vista de olhos aos blogues e ler comentários. Surpresa no Sidadania Um, estava um texto da Silêncio Culpado, com uma agradável massagem ao meu ego, que me faz ficar embasbacado, pois sou visto de uma maneira tão diferente daquilo que realmente sou. Perco-me nas leituras matinais, fico pensativo, e como gostaria de ser apenas um pouco aquilo que alguns pensam que sou. Bem sei que há quem me veja de outra forma, como sendo um ser odioso, e egoísta cheio de defeitos que acima de tudo pretende o protagonismo em tudo o que faz. Talvez acabe por ser do tipo nem tanto ao mar nem tanto à terra, e nem uns nem outros estarão certos e a verdade onde estará nem mesmo eu sei.
Olho para o relógio novamente são sete horas. Demasiado cedo ainda. Sete e meia e arrisco sair para tomar o café que tanta falta me está a fazer. O frio entra-me pelas calças e as mãos gelam. Preciso vestir as calças de pijama à laia de ceroulas e comprar umas luvas que os dedos doem com o frio. Tenho de ir para o circuito de manutenção no parque da vila fazer a minha caminhada matinal. Equipado bem agasalhado estou preparado para começar o dia. Gorro escocês de Tartan na cabeça que comprei em Edimburgo e que estava perdido numa gaveta falta as luvas. São cerca de nove horas e a loja das roupas deve estar a abrir.
-Queria umas luvas pretas quentinhas. Uma série delas escolhi e perguntei quanto era.
-Não é nada senhor Raul. Dê cá um beijinho e muitos parabéns. A loja é de familiares, mas negócio é negócio, mas assentou bem esta oferta.
Toca o telefone estava já no parque a iniciar a minha caminhada. Descobri uma maneira nova de mãos livres o telemóvel por dentro do gorro segura-se bem.
-Então o meu bebé como está? Era uma amiga recente, cuja amizade entrou tipo Turbilhão. Momentos de partilha deliciosos.
Uma SMS, do Paulo a seguir outra da M. depois telefonam-me mais uns amigos.
Parece que todo o mundo se lembrou do dia dos meus anos. Cheira a mistério no ar há surpresas, que ainda não descobri, mas que sinto.
O dia está a decorrer num clima de calor humano à minha volta. Manifestação de carinho e apreço com a qual me estou a sentir bem. Para o dia ser perfeito só falta mesmo algum FDP que não me grame aparecer a chatear-me. Mas os inimigos e pessoas que não gostem de nós são necessários na vida para reflectirmos acerca da razão desse não gostar e se for caso disso limarmos as arestas que causam essa fricção. O que seria do mundo se não houvesse os dois pólos, se não houvesse céu e inferno ou o bem e o mal não fossem diferenciados? Creio que a nossa razão de existir deixaria de ter sentido.
Tirei o gorro, as luvas e o casacão e embora esteja o aquecimento ligado, o calor que estou sentindo é o que estou recebendo de todos os meus amigos e amigas.
Bem hajam por isso.


"A morte e a dor da morte, presente em cada momento das nossas vidas, tem que servir um propósito sublime e nobre. Tem que servir para nos despertar, em cada segundo, para a dádiva da vida. Seja em que circunstâncias forem. Não importa se estamos doentes, não importa se nos encontramos completamente vencidos pelo desaparecimento de um ente querido, não importa se atravessamos um período de imensas provações e privações. Estamos vivos.
Em cada derrota temos que buscar forças para o próximo combate, em cada vitória temos que nos alimentar de alegria e bem-estar e acordar sempre para o facto, insubstituível de estarmos vivos! Apreciem cada momento bom como se fosse o último, vivam cada mau bocado agarrando-se à suprema dádiva de continuarem vivos. E vivam como se devessem algo à vida e nunca como se a vida nos devesse algo."