A SIDA DE HOJE

Falámos no texto publicado no “Sidadania Um”, algo sobre o passado e sobre a situação actual da SIDA hoje, que parece estar simplificada nas terapias com poderosos químicos que mantém o vírus controlado e mantêm o sistema imunitário forte.
Na verdade fizeram-se grandes avanços a nível terapêutico e é possível prolongar a vida de um infectado, sendo a longevidade do mesmo semelhante à de uma pessoa não infectada.
Algo que assustava as pessoas no passado era a quantidade de comprimidos que se tinham de ingerir num dia. Tendo iniciado a medicação em 1997 nunca fui dos mais azarados nessa quantidade de comprimidos para controlar o vírus e se bem me lembro o máximo que tomei foram 14 comprimidos dia. Actualmente tomo 8 comprimidos divididos por duas tomas diárias e não me preocupa em reduzir este número, pois a minha maior preocupação é com uma menor toxicidade da medicação e não com a conveniência das tomas. Poderia facilmente fazer o “Switch” para outra medicação, e inclusivamente optar por um comprimido por dia, mas não o quero fazer. Tenho a noção que os químicos utilizados são muito poderosos e acho que devo poupar o organismo de toxidade em detrimento da conveniência.
Mas vamos falar do tema actual de um comprimido dia como terapêutica, e do pensamento popular de que a SIDA já não é o terror de dezenas de comprimidos por dia para que o vírus seja controlado. Será esta a realidade?
Comparando as histórias de príncipes e princesas que finalmente casaram e viveram felizes para sempre, esta nova história de que se tem SIDA, toma um comprimido por dia e viverá sem problemas para sempre não tem o mesmo final feliz.
Para os novos infectados, é mais uma barreira derrubada, contra o inicio da medicação que durante um período de 3 ou 4 anos lhes dá a tranquilidade necessária para entenderem a doença e a compreenderem. Reduzirá os casos de desespero e tantas vezes de suicídio que aconteciam e vai proporcionar uma melhor adesão à terapêutica o que é fundamental para que se controle a infecção.
Depois começam a aparecer os danos no organismo que a medicação provoca. Os medicamentos outros que não os retrovirais estes pagos pelo doente, começam a ser necessários. Uns para controlar o colestrol, outros para os problemas de hipertensão, o coração começa a dar mostras de problemas e aí vêm mais comprimidos. O pobre do doente abre uma conta de “não poupança” na farmácia que a cada dia vai aumentando. O corpo começa a deformar-se devido à lipodistrofia e o ginásio começa a ser necessário, para minimizar os danos ou se tiver capacidade económica começa a fazer tratamentos com enchimentos e outros métodos, que em Portugal não têm qualquer participação do estado.
E ainda há quem diga que ter SIDA não acarreta despesas pois o estado fornece os medicamentos gratuitamente. Fornece apenas os retrovirais e mais nenhuns e é bom que o faça pois se isso não acontecesse 90% dos infectados não tomaria medicação as cargas virais não seriam suprimidas e seriam uma arma biológica na propagação da doença, pois de não infectantes se tiverem cargas virais indetectáveis passariam a infectar eficazmente quando as cargas virais atingissem valores altíssimos. Seria o genocídio de uma população e o aumentar o numero de infectados o que produziria uma proliferação em cadeia da doença.
A SIDA continua a ser uma doença com a qual nos devemos preocupar seriamente. A SIDA hoje não é uma simples infecção crónica viral é muito mais do que isso. Não existe cura actualmente e os cientistas procuram-na. Como tudo na vida tem um fim certamente aparecerá uma solução para erradicar o vírus. Será uma vacina ou um tratamento mensal , semestral ou anual, que mantenha o vírus adormecido e não infectante?
Essa será a SIDA do futuro e iremos falar sobre esse tema no blogue “Sidadania Memória”, que actualmente está vocacionado para as terapias anti HIV , logo que o tempo disponível para a escrita nos permita.

LIPODISTROFIA "O novo rosto da SIDA"

O tratamento anti-retrovírico permitiu uma redução da incidência e morbilidade das Infecções Oportunistas, uma maior supressão da replicação vírica, um aumento da sobrevida e diminuição da mortalidade em doentes VIH/SIDA.
No entanto esta mesma terapia trouxe inúmeros efeitos indesejáveis com repercussões na qualidade de vida dos infectados. Os principais efeitos adversos associados à HAART podem ser resumidos em 6 grupos:
-Morfológicos (lipodistrofia),
- Metabólicos (resistência à insulina, dislipidemia, hiperlactameia e alterações ósseas),
-Toxicidade hepática, pancreática e renal,
-Hematológicos (anemia e neutropenia),
-Neuromusculares (neuropatia periférica, síndrome neuromuscular associada ao VIH, miopatia),
-Reacções de hipersensibilidade.
Hoje vamos centrar-nos nas alterações morfológicas mais concretamente na síndrome de lipodistrofia que é basicamente uma alteração da disposição de gordura corporal que afecta cerca de 25 a 50% dos doentes infectados VIH/SIDA.
As mudanças corporais mais descritas tem sido a LIPOHIPERTROFIA que se caracteriza por uma acumulação anormal de gordura dorsocervical, aumento do volume dos seios, aumento da gordura abdominal e expansão da circunferência do pescoço (buffalo hump ou corcunda de búfalo) e a LIPOATROFIA que consiste na perda de gordura subcutânea na face, pernas, braços e nádegas e diminuição da gordura periférica.
Inicialmente a lipodistrofia foi associada ao uso dos fármacos IP contudo parece haver evidências destas alterações associadas ao uso dos INTR nomeadamente à Estavudina (d4T). No entanto não se sabe ao certo o que causa a lipodistrofia mas considera-se que tenha uma causa multifactorial ou seja é causada pela acção do próprio VIH, pela idade, factores genéticos, hormonais, factores imunológicos e pelo uso da HAART.
A síndrome de lipodistrofia pode ocasionar dificuldades psicológicas e emocionais nos infectados VIH como redução da auto-estima, percepção negativa da imagem corporal, evitamento de certos locais públicos como praia e piscinas onde o corpo está mais exposto, depressão, ansiedade, vergonha, impacto na vivência da sexualidade pois a pessoa sente-se menos atractiva sexualmente, medo da revelação forçada do diagnóstico pela associação entre o seu aspecto físico e a SIDA, e evitamento dos contacto sociais como forma de fugir ás perguntas relativas ao aspecto físico.
Têm sido feitas tentativas de corrigir as alterações lipodistróficas mas até agora com êxito limitado:
Uma das formas de evitar a lipodistrofia é evitando o uso de fármacos que a causam (pelo menos como primeira linha de tratamento) ou substituindo os fármacos implicados.
Outras indicações passam pelo exercício físico, dieta alimentar (hipocalórica), mudanças no estilo de vida (evitar fumar, beber álcool ou consumir drogas) uso de roupas que escondam ou disfarcem as alterações corporais e a correcção cirúrgica/cosmética que tem tido grande aceitação por parte dos doentes e significativa eficácia embora os custos sejam elevados e o Estado Português não comparticipe este tipo de intervenções. O alto custo destes procedimentos torna o seu acesso limitado à maioria dos doentes.
Também têm sido usadas intervenções farmacológicas mas com eficácia limitada e por vezes com efeitos adversos como é o caso da Metformina (gordura central), Rosiglitazona, Hormona do crescimento (gordura central), Pravastatina (gordura periférica) e Anabolizantes.
A lipodistrofia traz uma diminuição acentuada da qualidade de vida e parece contribuir para a redução da adesão à terapêutica, por este motivo esta síndrome requer uma abordagem multidisciplinar de várias especialidades como médicos, psicólogos, nutricionistas e profissionais de educação física.
Autor: Isabel Pinto

A SIDA e os outros




Doenças infecto-contagiosas como a SIDA têm levantado, mesmo em países desenvolvidos, inúmeras questões do ponto de vista ético, sanitário e relacional entre os infectados e os outros.É frequente questionar-se a legitimidade de um portador de HIV, por exemplo, exercer profissões como a de cirurgião ou cozinheiro, entre outras, pelo risco de contágio caso o sangue, proveniente dum corte ou dum arranhão, possa facilitar a transmissão a um paciente ou a umconsumidor dum determinado produto culinário. Também frequentemente se tem posto a questão se deverá, ou não, um médico prevenir um parceiro sexual em risco de contágio caso o paciente se decida por não dar a conhecer a sua condição.Estas questões, pese embora a sua pertinência pelo facto de tudo o que nos atormenta dever ser debatido, pecam, em meu entender, por um excesso de purismo e de fundamentalismo que não raras vezes perverte pela emoção a natureza do que de facto está em jogo.Não é toda a vida, ela mesma, um risco e não estamos nós sujeitos a cada instante, e a cada passo, a sermos feridos de morte por um dos múltiplos perigos que nos espreitam? Por quê então esta necessidade de segregação sombria que não elimina perigos e antes os concentra numa só imagem deixando todas as outras a descoberto? Não andamos nós em contacto permanente com pessoas cujo estado sanitário desconhecemos por completo? Será que deixamos, por isso, de utilizar equipamentos e infra-estruturas baseados apenas nestes receios?A resposta parece óbvia mas nem por isso consensual. Do meu ponto de vista, e porque considero que a minha pessoa não é assim tão valiosa e especial em relação a todos os que sofrem na alma e na carne muitas dores cruéis, aceito como naturais ao riscos da minha existência para os quais me preparo sem temores absolutos. A consciência cívica de cada um será sempre o grande motor da relação entre o indivíduo e os outros e, caso esta falhe, dificilmente os homens encontrarão práticas punitivas ou segregacionistas que eliminem todos os riscos de alguém para quem a sociedade deixou de lhe merecer respeito.Numa sociedade de risco admitir que um cozinheiro com SIDA é um potencial de perigo só porque exerce uma profissão em que, casualmente, se poderá ferir, esquecendo que essa pessoa é antes de tudo um ser humano que conhece os seus deveres para com os outros e logo utilizará todas as prevenções para não lhes transmitir a doença que transporta, é no mínimo grotesco. Porque este homem que precisa ser ressarcido dos danos causados contribuindo para a sociedade através da sua profissão, se for realmente um perigo pela ausência de valores comportamentais, ele será sempre um perigo quer seja cozinheiro ou não o seja. Quer tenha HIV ou não o tenha.Este cozinheiro português foi despedido mas, felizmente, vão-nos chegando exemplos doutras actuações em que, ultrapassadas as barreiras do excesso de zelo pelo estigma, se permite que os cidadãos infectados continuem o seu trabalho realizando-se e contribuindo para que outros vivam e se realizem também. É o caso do médico cirurgião israelita que, em situação de Sida, continuou operando, a uma média de 150 doentes ano, um total de 1.669 pacientes. Com precauções especiais nomeadamente através da utilização de luvas reforçadas, nenhum cidadão foi contagiado.Entretanto talvez fosse interessante conhecer quantos indivíduos, nesse universo de pacientes, foram vítimas de perigos não identificados com o HIV."

Texto de L.Soares

Gripe Visita Segura


Febre, arrepios, cefaleias, dores, fadiga, irritação ocular, tosse seca, obstrução nasal e rouquidão são os sintomas da famigerada doença contagiosa resultante da infecção pelo vírus influzenza: a gripe. Transmite-se de pessoa para pessoa de várias maneiras, quer por inalação de gotículas provenientes da tosse e dos espirros, quer pelo contacto directo com as secreções. A inalação destas partículas através do nariz e da garganta permite a entrada do vírus no organismo. Este começa a replicar-se destruindo a membrana mucosa do tracto respiratório provocando os sintomas.
Para evitar a transmissão, o contacto com os indivíduos infectados deve ser reduzido, lavar frequentemente as mãos com água e sabão, proteger a boca e o nariz quando se tosse ou espirra com lenços de papel de utilização única.
Após exposição ao vírus, este tem um período de incubação curto – de 24 a 48 horas – e a doença permanece cerca de cinco dias.
Terapêutica não farmacológica: repouso, alimentação rica em vitaminas (vegetais e fruta), ingestão de grandes quantidades de líquidos.
Terapêutica farmacológica: não existe tratamento eficaz, usam-se apenas medicamentos para alivio dos sintomas como analgésicos e antipiréticos, anti- histamínicos e descongestionantes nasais, antitussicos e expectorantes.

A complicação da gripe é a sobre infecção por bactérias sobretudo nos grupos de maior risco, podendo originar pneumonias graves.
Sendo muito contagiosa e com um pico de actividade maior entre Dezembro e Fevereiro, recomenda-se a vacinação durante o Outono para que os anticorpos atinjam o máximo nos meses mais críticos. A vacina persiste alguns meses, garantindo imunidade até Março ou Abril. Existem na farmácia uns medicamentos denominados de “preparados lisados bacterianos” e recomendam-se igualmente como prevenção conferindo igualmente grande imunidade. Estas prevenções diminuem a gravidade dos casos e mesmo a mortalidade.
Nos grupos a vacinar recomendam-se os indivíduos:
- crianças e grávidas com patologias especiais e crónicas (cardíacas, renais, pulmonares, diabetes)
- que tenham o sistema imunitário enfraquecido
- com idades superiores a 65 anos e os que inspirem muitos cuidados de saúde.
- portadores do VIH e cancro
- profissionais de saúde e outros com maior risco de contágio.


A gripe é visita segura todos os anos no Inverno. Mais vale prevenir.

NÃO OPORTUNISTAS NO VIH


A Terapia Antiretroviral de Grande Actividade TARGA conhecida também pela sua sigla em inglês HAART, fez com que as pessoas infectadas pelo HIV vivessem mais anos. As pessoas deixaram de morrer já que as infecções oportunistas consequência de um sistema imunitário deficiente ou quase inexistente, são combatidas uma vez que a imunosupressão era algo pertencente ao passado em que as terapias não estavam optimizadas e os poucos fármacos existentes na altura passavam a não surtir efeito devido ao desenvolvimento de resistências do vírus ao medicamento.
Não haja duvida que a terapia que incluía mais do que um medicamento de classes diferentes, foi um marco na história da SIDA, e graças a ela muitas vidas foram prolongadas por anos e anos , com uma aparente qualidade de vida. Também graças a ela as cargas virais desceram a níveis do chamado indetectáveis, e as pessoas infectadas deixaram de ser instrumentos de proliferação do vírus, quando esta situação se estabilizava por períodos de mais de seis meses.
Mas como nem tudo são rosas, e a SIDA continua a matar, de um modo mais subtil e disfarçado que não entra nas estatísticas de mortes causadas pelo HIV, agora os cientistas e investigadores estão-se apercebendo de novos cancros comuns nas pessoas infectadas e que são doenças que não estão incluídas na categoria das doenças oportunistas que definem o estado de SIDA.
Os linfomas não Hodgkin (LNH), cancro do colo do útero e o Sarcoma de Kaposi (SK), entre outras doenças oportunistas deixaram de ser comuns , mas cancros de pele, o cancro anal e outros que se pensa serem causados pelos mesmos subtipos do virus do papiloma humano , passaram a ter uma incidência muito maior em pessoas infectadas pelo VIH do que na população não infectada.
Entre doenças oportunistas consideradas definidoras do estado de SIDA e doenças não definidoras deste estado, detectadas em pessoas infectadas 71% eram cancros que não eram devidos a uma destruição do sistema imunitário.
Os factores que predizem este tipo de cancro, estudados em pessoas infectadas parecem ser devido a uma idade mais avançada e ser de etnia branca onde os cancros de pele são mais comuns. O certo é que com as terapias TARGA/HAART, o numero de cancros devido à imunosupressão vem baixando e os cancros não classificados como enfermidades oportunistas vêm aumentando de dia para dia e constituem a maioria de cancros em pessoas com o HIV.
Concluem os investigadores que as triterapias reduzem a incidência de cancros definidores de sida e que o impacto no outro tipo de cancros não é significativo. Pensam que o VIH através de alguns dos seus genes como o TAT, poderia ter uma acção directa e favorecer o desenvolvimento destas doenças, que nada têm a ver com a destruição do sistema imunitário.
Muitos mais estudos e muito mais investigação terá de ser feita até se encontrar o Calcanhar de Aquiles do hediondo vírus da Sida que tantas vidas tem ceifado. Até que isso aconteça resta-nos sobreviver.

O meu dia de aniversário


Acordei bem cedo. Viro-me e reviro-me na cama, mas as dores num corpo recentemente cortado com ossos serrados sobrepõem-se ao conforto de um leito quentinho quando toda a casa parece um gelo. O banho matinal começou por ser um suplício. A água bem quente do chuveiro amenizou o mau estar devido ao frio. Seguem-se as massagens com creme hidratante à perna onde tiraram a “Safena” para ver se a circulação sanguínea melhora e o inchaço desaparece. Olho para o relógio e pouco passa das seis horas da manhã. Os cafés estão todos fechados e necessito da minha dose de cafeína para acordar completamente. Ligo o Computador e vou dar uma vista de olhos aos blogues e ler comentários. Surpresa no Sidadania Um, estava um texto da Silêncio Culpado, com uma agradável massagem ao meu ego, que me faz ficar embasbacado, pois sou visto de uma maneira tão diferente daquilo que realmente sou. Perco-me nas leituras matinais, fico pensativo, e como gostaria de ser apenas um pouco aquilo que alguns pensam que sou. Bem sei que há quem me veja de outra forma, como sendo um ser odioso, e egoísta cheio de defeitos que acima de tudo pretende o protagonismo em tudo o que faz. Talvez acabe por ser do tipo nem tanto ao mar nem tanto à terra, e nem uns nem outros estarão certos e a verdade onde estará nem mesmo eu sei.
Olho para o relógio novamente são sete horas. Demasiado cedo ainda. Sete e meia e arrisco sair para tomar o café que tanta falta me está a fazer. O frio entra-me pelas calças e as mãos gelam. Preciso vestir as calças de pijama à laia de ceroulas e comprar umas luvas que os dedos doem com o frio. Tenho de ir para o circuito de manutenção no parque da vila fazer a minha caminhada matinal. Equipado bem agasalhado estou preparado para começar o dia. Gorro escocês de Tartan na cabeça que comprei em Edimburgo e que estava perdido numa gaveta falta as luvas. São cerca de nove horas e a loja das roupas deve estar a abrir.
-Queria umas luvas pretas quentinhas. Uma série delas escolhi e perguntei quanto era.
-Não é nada senhor Raul. Dê cá um beijinho e muitos parabéns. A loja é de familiares, mas negócio é negócio, mas assentou bem esta oferta.
Toca o telefone estava já no parque a iniciar a minha caminhada. Descobri uma maneira nova de mãos livres o telemóvel por dentro do gorro segura-se bem.
-Então o meu bebé como está? Era uma amiga recente, cuja amizade entrou tipo Turbilhão. Momentos de partilha deliciosos.
Uma SMS, do Paulo a seguir outra da M. depois telefonam-me mais uns amigos.
Parece que todo o mundo se lembrou do dia dos meus anos. Cheira a mistério no ar há surpresas, que ainda não descobri, mas que sinto.
O dia está a decorrer num clima de calor humano à minha volta. Manifestação de carinho e apreço com a qual me estou a sentir bem. Para o dia ser perfeito só falta mesmo algum FDP que não me grame aparecer a chatear-me. Mas os inimigos e pessoas que não gostem de nós são necessários na vida para reflectirmos acerca da razão desse não gostar e se for caso disso limarmos as arestas que causam essa fricção. O que seria do mundo se não houvesse os dois pólos, se não houvesse céu e inferno ou o bem e o mal não fossem diferenciados? Creio que a nossa razão de existir deixaria de ter sentido.
Tirei o gorro, as luvas e o casacão e embora esteja o aquecimento ligado, o calor que estou sentindo é o que estou recebendo de todos os meus amigos e amigas.
Bem hajam por isso.


"A morte e a dor da morte, presente em cada momento das nossas vidas, tem que servir um propósito sublime e nobre. Tem que servir para nos despertar, em cada segundo, para a dádiva da vida. Seja em que circunstâncias forem. Não importa se estamos doentes, não importa se nos encontramos completamente vencidos pelo desaparecimento de um ente querido, não importa se atravessamos um período de imensas provações e privações. Estamos vivos.
Em cada derrota temos que buscar forças para o próximo combate, em cada vitória temos que nos alimentar de alegria e bem-estar e acordar sempre para o facto, insubstituível de estarmos vivos! Apreciem cada momento bom como se fosse o último, vivam cada mau bocado agarrando-se à suprema dádiva de continuarem vivos. E vivam como se devessem algo à vida e nunca como se a vida nos devesse algo."

ÉTICA E MEDICINA



A vida é curta
E muito longo o caminho a percorrer.
As oportunidades são passageiras
A experiência traiçoeira
E a avaliação difícil.

Hipócrates

Nunca como nos dias de hoje os conceitos de ética e de moral foram tão utilizados, tão absurdamente banalizados e tão raramente cumpridos. São várias as correntes que os definem, diferentes os conceitos em que assentam e estabilizam procurando, duma forma pouco ética (digo eu), ganhar tempo e espaço para que, a partir da confusão, os mesmos não se cumpram em nenhuma das visões que os fundamentam.
O cidadão vive desconfiado, e enjoado, destes conceitos vazios perante uma realidade em que se perde e se revolta sem que, quem dirige os destinos, se digne dar outra forma à ética das instituições e à cadeia humana que as encarna.
Por vezes é escabrosa a ética dos sem ética que apregoam a ética. Na medicina e na investigação médica alguns exemplos chegam a doer. Não porque sejam piores que muitos outros na sociedade mas porque quando se trata de vidas humanas, de sofrimentos e oportunidades de vida, falar em ética é mais do que citar exemplos. É trazer, com toda a crueza, para a luz do dia a falta de oportunidades que impedem muitos de respirarem e, consequentemente, de continuarem a viver.
A investigação médica, dizia-me um amigo, vive, desenvolve-se e direcciona-se consoante os interesses da indústria farmacêutica. Mas logo acrescentava que sem os milhões que a indústria farmacêutica disponibiliza para as investigações estas não conheceriam os avanços, por vezes espectaculares, em áreas tidas como particularmente sensíveis e onde se tornou possível salvar muitas vidas e conferir-lhes novas qualidades.
Outros murmuram que medicamentos caros não são receitados a doentes em hospitais públicos ou que certos médicos receitam medicamentos de marcas e em quantidades discutíveis.
Fala-se também nas listas de espera para cirurgias, e em demoras que podem fazer toda a diferença.
Choca-me de sobremaneira representar mentalmente estas situações e, quando o faço, a revolta é tão grande que não me conformo. Podem existir opiniões divergentes em relação a muitas teorias políticas e de governação mas em relação à saúde costumo dizer: aqui não há conversa fiada. Todos têm que ser tratados como gente e em igualdade absoluta seja qual for a sua condição. Nada menos que isto é digno. Nada menos que isto pode ser aceite por quem ainda lhe resta um pingo de decência.
Falar de ética e moral no mundo da economia, do nosso quotidiano ou na esfera do consumo é remetermo-nos para uma realidade composta por várias realidades em que o desenvolvimento humano submerge perante a mundialização que, pelas suas vicissitudes, compromete o aperfeiçoamento das relações humanas. Enquanto os interesses filtrarem os que os servem excluindo os que os prejudicam, a ciência cria e alimenta clivagens cada vez mais brutais no plano das desigualdades.

BOM ANO DE 2009 PORQUE ... É SEMPRE TEMPO!


O Raul pediu-me para escrever uma história feliz, uma história de esperança para o ano 2009. Mas eu não sei escrever histórias. Pelo menos não sei escrever histórias inventadas. Tudo o que escrevo são pedaços de realidades vistas com os olhos que tenho. Mensagens sentidas que procuram feedback acreditando que as emoções que me animam farão, algures, alguém chorar ou rir comigo, ou experimentar emoções mais fortes que vão da dor à revolta e à impotência.
É assim no mundo da SIDA/HIV onde a esperança é crucial à vida, à prevenção e à reconstrução a partir de escombros e de ilhas solitárias. Mas não apenas no mundo da Sida. Em toda a terra onde há diferentes, doentes e marginalizados há que plantar as árvores que um dia lhes trarão os frutos da inclusão.
Estava eu sem inspiração alguma quando recebi um SMS vindo dos confins do tempo de alguém que, supostamente, deveria ter morrido.
Alguém que não esqueceu que um dia junto à estação ferroviária pedi a uns indivíduos que lhe batiam desalmadamente, por ele os ter roubado, que parassem de lhe bater.
Actualmente arranja calçado numa pequena loja que alugou. Disse-me que era feliz apesar de não ter a força de outrora. E tudo isto porque a filha que não conheceu até aos 10 anos de idade, quando ele andava na má vida, vem de quando em quando visitá-lo. Xavier quer que a filha ainda se orgulhe dele. Quando se quer tanto uma coisa consegue-se vencer a doença, as carências e os olhares desconfiados de quem o possa associar ao seu passado.
Xavier não tem dúvidas quanto ao valor da vida e ao sentido que a mesma pode ter quando se luta por amor de alguém. Um amor que descobriu depois do sofrimento e, por isso, bem maior e mais valioso do que o encontrado e mal percebido quando não tinha olhos para olhar.


E é com esta mensagem que desejo, a todos os visitantes, um ANO 2009 repleto de realizações pessoais. Um Ano em que a esperança e a verdade estejam sempre presentes e em que, mais uma vez, sejamos capazes de outros desafios não esquecendo que somos um todo e que, assim sendo, ninguém pode amar menos qualquer parte de si próprio.






O NATAL DO JOÃO

As luzes de Natal sempre tiveram o condão de o deixar mais sozinho. As montras, os presentes e todo o movimento da Baixa Lisboeta faziam-no sentir mais só e mais distante e com um frio interno que não era só das temperaturas baixas.
A festa da família recorda-lhe que não tem família e que algures, numa aldeia distante, a vida continua junto à lareira na festa da consoada onde talvez apenas a mãe dê pela sua falta. O coração de mãe talvez interrogue onde ele estará e talvez chore ainda que sorria na mesa que alindou para os outros membros da família.
Ele fez parte desse passado de representações e de afectos onde não cabiam os fracassos e as desilusões.
E eram grandes as expectativas que tinham sobre ele. Engenheiro de profissão depressa trepou na escala hierárquica duma empresa da margem Sul. E foi então que conheceu a Ana e com ela trilhou os caminhos do álcool e das drogas que rápido lhe trouxeram o desemprego. Em fase de reestruturação da empresa e de redução de pessoal, ele conseguiu expor-se e dar os pretextos que os patrões pretendiam para o pôr dali para fora sem indemnização.
O homem de que se falava na aldeia como um caso de inteligência e de sucesso era agora coisa nenhuma. Pelo menos ele assim o sentia enquanto olhava as montras enfeitadas e pensava na caixa de papelão onde pernoitaria naquela noite fria de Inverno.
Ele sabia que estava doente, muito doente mas tinha medo de confrontar-se com a verdade. E afinal que importava o nome da doença se a morte estava por perto? E porque haveria ele de insistir em estar vivo?
A noite fica mais densa quando se deita debaixo duma arcada do Terreiro do Paço. Um rapazito de cerca de 5 anos, filho duns sem-abrigo que, como ele, partilhavam aquele espaço, perguntava por um Pai Natal que o tinha esquecido e deixado as suas mãos vazias.
O nosso homem lembra então que num dos seus bolsos conserva um carrinho dum seu filho que, há vários anos não vê, mas que sente presente sempre que toca naquele brinquedo esquecido no seu gabinete de trabalho na época áurea em que era amado e respeitado.
E num rasgo de generosidade põe o brinquedo nas mãos do petiz que o olha deslumbrado. Sim, porque quem perdeu tudo tem muito para dar nomeadamente esse afecto supremo que lhe permite desprender-se do que mais ama.
E com a felicidade da criança, João adormeceu mais quente e mais feliz. E os seus sonhos foram de um verdadeiro Natal. (*)

* Dedico este texto ao meu amigo J.Carlos falecido no Inverno passado.

O MEDO

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.·
Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

“A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida.”
Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos.
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'

Quem nunca sentiu o medo? Quem não vive e convive diariamente com o medo no seu dia a dia sobrecarregado de inquietações que, no fundo, não são mais que manifestações do próprio medo?
Medo de viver, medo de morrer, medo de enfrentar a doença e de ir perdendo no percurso as pessoas amadas. Medo da não-aceitação, da solidão, da perda de objectivos sem os quais a vida deixa de ter sentido.
Nós vivemos sobre a tutela do medo se até as coisas boas nos assustam por as não sabermos aceitar ou pela antevisão do sofrimento que nos causarão se as perdermos. O medo é físico, é psicológico, é animal, é a condição humana resumida à inquietação que a domina e que a perverte. O medo é tão intenso quanto a libido que o sacia e lhe dá tréguas, o único mergulho possível em mar encapelado. A única possibilidade de sobrevivência e de criação suprema.
Nós somos o medo e, por isso, não podemos deixar de ter medo.

E é nessa representação do ser em que a socialização eivou de novas inquietações a representação do mundo físico e social, que o infectado pelo HIV recebe a notícia da sua condição. Ele não terá o mesmo rosto perante a família e os amigos a quem deverá comunicar a doença maldita. Ele sente-se semi-castrado perante um sexo que já não se expande livremente mas com novas regras. Ele tem medo de ser rejeitado e da compaixão. Ele tem também medo de ser amado. Ele tem medo de sofrer, tem medo de olhar a vida com olhares que perscrutam as novas fragilidades. Ele tem medo que as portas se fechem e que as portas se abram porque descrer depois de crer é o medo materializado em pesadelo.
Sim, o infectado tem medo do HIV mas mais do que a doença contam as suas representações, as suas crenças, os seus valores e as suas amizades. Ele tem medo porque ele é medo. Um medo que não se dissipa a não ser com os afectos tranquilos de quem sabe partilhar ajudando a caminhar e ajudando-se a si próprio nessa ajuda que o torna mais forte.

Façamos pois do medo a nossa bandeira. E sob a bandeira do medo damos asas às nossas emoções que criam, recriam, transformam e operam milagres. Porque o medo não se deixa comprar nem sofre hierarquias, ele é a nossa consistência e nossa força.
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