O meu dia de aniversário


Acordei bem cedo. Viro-me e reviro-me na cama, mas as dores num corpo recentemente cortado com ossos serrados sobrepõem-se ao conforto de um leito quentinho quando toda a casa parece um gelo. O banho matinal começou por ser um suplício. A água bem quente do chuveiro amenizou o mau estar devido ao frio. Seguem-se as massagens com creme hidratante à perna onde tiraram a “Safena” para ver se a circulação sanguínea melhora e o inchaço desaparece. Olho para o relógio e pouco passa das seis horas da manhã. Os cafés estão todos fechados e necessito da minha dose de cafeína para acordar completamente. Ligo o Computador e vou dar uma vista de olhos aos blogues e ler comentários. Surpresa no Sidadania Um, estava um texto da Silêncio Culpado, com uma agradável massagem ao meu ego, que me faz ficar embasbacado, pois sou visto de uma maneira tão diferente daquilo que realmente sou. Perco-me nas leituras matinais, fico pensativo, e como gostaria de ser apenas um pouco aquilo que alguns pensam que sou. Bem sei que há quem me veja de outra forma, como sendo um ser odioso, e egoísta cheio de defeitos que acima de tudo pretende o protagonismo em tudo o que faz. Talvez acabe por ser do tipo nem tanto ao mar nem tanto à terra, e nem uns nem outros estarão certos e a verdade onde estará nem mesmo eu sei.
Olho para o relógio novamente são sete horas. Demasiado cedo ainda. Sete e meia e arrisco sair para tomar o café que tanta falta me está a fazer. O frio entra-me pelas calças e as mãos gelam. Preciso vestir as calças de pijama à laia de ceroulas e comprar umas luvas que os dedos doem com o frio. Tenho de ir para o circuito de manutenção no parque da vila fazer a minha caminhada matinal. Equipado bem agasalhado estou preparado para começar o dia. Gorro escocês de Tartan na cabeça que comprei em Edimburgo e que estava perdido numa gaveta falta as luvas. São cerca de nove horas e a loja das roupas deve estar a abrir.
-Queria umas luvas pretas quentinhas. Uma série delas escolhi e perguntei quanto era.
-Não é nada senhor Raul. Dê cá um beijinho e muitos parabéns. A loja é de familiares, mas negócio é negócio, mas assentou bem esta oferta.
Toca o telefone estava já no parque a iniciar a minha caminhada. Descobri uma maneira nova de mãos livres o telemóvel por dentro do gorro segura-se bem.
-Então o meu bebé como está? Era uma amiga recente, cuja amizade entrou tipo Turbilhão. Momentos de partilha deliciosos.
Uma SMS, do Paulo a seguir outra da M. depois telefonam-me mais uns amigos.
Parece que todo o mundo se lembrou do dia dos meus anos. Cheira a mistério no ar há surpresas, que ainda não descobri, mas que sinto.
O dia está a decorrer num clima de calor humano à minha volta. Manifestação de carinho e apreço com a qual me estou a sentir bem. Para o dia ser perfeito só falta mesmo algum FDP que não me grame aparecer a chatear-me. Mas os inimigos e pessoas que não gostem de nós são necessários na vida para reflectirmos acerca da razão desse não gostar e se for caso disso limarmos as arestas que causam essa fricção. O que seria do mundo se não houvesse os dois pólos, se não houvesse céu e inferno ou o bem e o mal não fossem diferenciados? Creio que a nossa razão de existir deixaria de ter sentido.
Tirei o gorro, as luvas e o casacão e embora esteja o aquecimento ligado, o calor que estou sentindo é o que estou recebendo de todos os meus amigos e amigas.
Bem hajam por isso.


"A morte e a dor da morte, presente em cada momento das nossas vidas, tem que servir um propósito sublime e nobre. Tem que servir para nos despertar, em cada segundo, para a dádiva da vida. Seja em que circunstâncias forem. Não importa se estamos doentes, não importa se nos encontramos completamente vencidos pelo desaparecimento de um ente querido, não importa se atravessamos um período de imensas provações e privações. Estamos vivos.
Em cada derrota temos que buscar forças para o próximo combate, em cada vitória temos que nos alimentar de alegria e bem-estar e acordar sempre para o facto, insubstituível de estarmos vivos! Apreciem cada momento bom como se fosse o último, vivam cada mau bocado agarrando-se à suprema dádiva de continuarem vivos. E vivam como se devessem algo à vida e nunca como se a vida nos devesse algo."

ÉTICA E MEDICINA



A vida é curta
E muito longo o caminho a percorrer.
As oportunidades são passageiras
A experiência traiçoeira
E a avaliação difícil.

Hipócrates

Nunca como nos dias de hoje os conceitos de ética e de moral foram tão utilizados, tão absurdamente banalizados e tão raramente cumpridos. São várias as correntes que os definem, diferentes os conceitos em que assentam e estabilizam procurando, duma forma pouco ética (digo eu), ganhar tempo e espaço para que, a partir da confusão, os mesmos não se cumpram em nenhuma das visões que os fundamentam.
O cidadão vive desconfiado, e enjoado, destes conceitos vazios perante uma realidade em que se perde e se revolta sem que, quem dirige os destinos, se digne dar outra forma à ética das instituições e à cadeia humana que as encarna.
Por vezes é escabrosa a ética dos sem ética que apregoam a ética. Na medicina e na investigação médica alguns exemplos chegam a doer. Não porque sejam piores que muitos outros na sociedade mas porque quando se trata de vidas humanas, de sofrimentos e oportunidades de vida, falar em ética é mais do que citar exemplos. É trazer, com toda a crueza, para a luz do dia a falta de oportunidades que impedem muitos de respirarem e, consequentemente, de continuarem a viver.
A investigação médica, dizia-me um amigo, vive, desenvolve-se e direcciona-se consoante os interesses da indústria farmacêutica. Mas logo acrescentava que sem os milhões que a indústria farmacêutica disponibiliza para as investigações estas não conheceriam os avanços, por vezes espectaculares, em áreas tidas como particularmente sensíveis e onde se tornou possível salvar muitas vidas e conferir-lhes novas qualidades.
Outros murmuram que medicamentos caros não são receitados a doentes em hospitais públicos ou que certos médicos receitam medicamentos de marcas e em quantidades discutíveis.
Fala-se também nas listas de espera para cirurgias, e em demoras que podem fazer toda a diferença.
Choca-me de sobremaneira representar mentalmente estas situações e, quando o faço, a revolta é tão grande que não me conformo. Podem existir opiniões divergentes em relação a muitas teorias políticas e de governação mas em relação à saúde costumo dizer: aqui não há conversa fiada. Todos têm que ser tratados como gente e em igualdade absoluta seja qual for a sua condição. Nada menos que isto é digno. Nada menos que isto pode ser aceite por quem ainda lhe resta um pingo de decência.
Falar de ética e moral no mundo da economia, do nosso quotidiano ou na esfera do consumo é remetermo-nos para uma realidade composta por várias realidades em que o desenvolvimento humano submerge perante a mundialização que, pelas suas vicissitudes, compromete o aperfeiçoamento das relações humanas. Enquanto os interesses filtrarem os que os servem excluindo os que os prejudicam, a ciência cria e alimenta clivagens cada vez mais brutais no plano das desigualdades.

BOM ANO DE 2009 PORQUE ... É SEMPRE TEMPO!


O Raul pediu-me para escrever uma história feliz, uma história de esperança para o ano 2009. Mas eu não sei escrever histórias. Pelo menos não sei escrever histórias inventadas. Tudo o que escrevo são pedaços de realidades vistas com os olhos que tenho. Mensagens sentidas que procuram feedback acreditando que as emoções que me animam farão, algures, alguém chorar ou rir comigo, ou experimentar emoções mais fortes que vão da dor à revolta e à impotência.
É assim no mundo da SIDA/HIV onde a esperança é crucial à vida, à prevenção e à reconstrução a partir de escombros e de ilhas solitárias. Mas não apenas no mundo da Sida. Em toda a terra onde há diferentes, doentes e marginalizados há que plantar as árvores que um dia lhes trarão os frutos da inclusão.
Estava eu sem inspiração alguma quando recebi um SMS vindo dos confins do tempo de alguém que, supostamente, deveria ter morrido.
Alguém que não esqueceu que um dia junto à estação ferroviária pedi a uns indivíduos que lhe batiam desalmadamente, por ele os ter roubado, que parassem de lhe bater.
Actualmente arranja calçado numa pequena loja que alugou. Disse-me que era feliz apesar de não ter a força de outrora. E tudo isto porque a filha que não conheceu até aos 10 anos de idade, quando ele andava na má vida, vem de quando em quando visitá-lo. Xavier quer que a filha ainda se orgulhe dele. Quando se quer tanto uma coisa consegue-se vencer a doença, as carências e os olhares desconfiados de quem o possa associar ao seu passado.
Xavier não tem dúvidas quanto ao valor da vida e ao sentido que a mesma pode ter quando se luta por amor de alguém. Um amor que descobriu depois do sofrimento e, por isso, bem maior e mais valioso do que o encontrado e mal percebido quando não tinha olhos para olhar.


E é com esta mensagem que desejo, a todos os visitantes, um ANO 2009 repleto de realizações pessoais. Um Ano em que a esperança e a verdade estejam sempre presentes e em que, mais uma vez, sejamos capazes de outros desafios não esquecendo que somos um todo e que, assim sendo, ninguém pode amar menos qualquer parte de si próprio.






O NATAL DO JOÃO

As luzes de Natal sempre tiveram o condão de o deixar mais sozinho. As montras, os presentes e todo o movimento da Baixa Lisboeta faziam-no sentir mais só e mais distante e com um frio interno que não era só das temperaturas baixas.
A festa da família recorda-lhe que não tem família e que algures, numa aldeia distante, a vida continua junto à lareira na festa da consoada onde talvez apenas a mãe dê pela sua falta. O coração de mãe talvez interrogue onde ele estará e talvez chore ainda que sorria na mesa que alindou para os outros membros da família.
Ele fez parte desse passado de representações e de afectos onde não cabiam os fracassos e as desilusões.
E eram grandes as expectativas que tinham sobre ele. Engenheiro de profissão depressa trepou na escala hierárquica duma empresa da margem Sul. E foi então que conheceu a Ana e com ela trilhou os caminhos do álcool e das drogas que rápido lhe trouxeram o desemprego. Em fase de reestruturação da empresa e de redução de pessoal, ele conseguiu expor-se e dar os pretextos que os patrões pretendiam para o pôr dali para fora sem indemnização.
O homem de que se falava na aldeia como um caso de inteligência e de sucesso era agora coisa nenhuma. Pelo menos ele assim o sentia enquanto olhava as montras enfeitadas e pensava na caixa de papelão onde pernoitaria naquela noite fria de Inverno.
Ele sabia que estava doente, muito doente mas tinha medo de confrontar-se com a verdade. E afinal que importava o nome da doença se a morte estava por perto? E porque haveria ele de insistir em estar vivo?
A noite fica mais densa quando se deita debaixo duma arcada do Terreiro do Paço. Um rapazito de cerca de 5 anos, filho duns sem-abrigo que, como ele, partilhavam aquele espaço, perguntava por um Pai Natal que o tinha esquecido e deixado as suas mãos vazias.
O nosso homem lembra então que num dos seus bolsos conserva um carrinho dum seu filho que, há vários anos não vê, mas que sente presente sempre que toca naquele brinquedo esquecido no seu gabinete de trabalho na época áurea em que era amado e respeitado.
E num rasgo de generosidade põe o brinquedo nas mãos do petiz que o olha deslumbrado. Sim, porque quem perdeu tudo tem muito para dar nomeadamente esse afecto supremo que lhe permite desprender-se do que mais ama.
E com a felicidade da criança, João adormeceu mais quente e mais feliz. E os seus sonhos foram de um verdadeiro Natal. (*)

* Dedico este texto ao meu amigo J.Carlos falecido no Inverno passado.

O MEDO

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.·
Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

“A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida.”
Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos.
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'

Quem nunca sentiu o medo? Quem não vive e convive diariamente com o medo no seu dia a dia sobrecarregado de inquietações que, no fundo, não são mais que manifestações do próprio medo?
Medo de viver, medo de morrer, medo de enfrentar a doença e de ir perdendo no percurso as pessoas amadas. Medo da não-aceitação, da solidão, da perda de objectivos sem os quais a vida deixa de ter sentido.
Nós vivemos sobre a tutela do medo se até as coisas boas nos assustam por as não sabermos aceitar ou pela antevisão do sofrimento que nos causarão se as perdermos. O medo é físico, é psicológico, é animal, é a condição humana resumida à inquietação que a domina e que a perverte. O medo é tão intenso quanto a libido que o sacia e lhe dá tréguas, o único mergulho possível em mar encapelado. A única possibilidade de sobrevivência e de criação suprema.
Nós somos o medo e, por isso, não podemos deixar de ter medo.

E é nessa representação do ser em que a socialização eivou de novas inquietações a representação do mundo físico e social, que o infectado pelo HIV recebe a notícia da sua condição. Ele não terá o mesmo rosto perante a família e os amigos a quem deverá comunicar a doença maldita. Ele sente-se semi-castrado perante um sexo que já não se expande livremente mas com novas regras. Ele tem medo de ser rejeitado e da compaixão. Ele tem também medo de ser amado. Ele tem medo de sofrer, tem medo de olhar a vida com olhares que perscrutam as novas fragilidades. Ele tem medo que as portas se fechem e que as portas se abram porque descrer depois de crer é o medo materializado em pesadelo.
Sim, o infectado tem medo do HIV mas mais do que a doença contam as suas representações, as suas crenças, os seus valores e as suas amizades. Ele tem medo porque ele é medo. Um medo que não se dissipa a não ser com os afectos tranquilos de quem sabe partilhar ajudando a caminhar e ajudando-se a si próprio nessa ajuda que o torna mais forte.

Façamos pois do medo a nossa bandeira. E sob a bandeira do medo damos asas às nossas emoções que criam, recriam, transformam e operam milagres. Porque o medo não se deixa comprar nem sofre hierarquias, ele é a nossa consistência e nossa força.
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Ciência a quanto obriga[va]s ...

Pegar num vírus ou outro agente patogénico mortal e a título de experiência injectá-lo numa criança saudável, para ver o que acontece, é algo que não cabe na cabeça de ninguém nos dias de hoje. Por estranho que pareça foi isso que aconteceu quando em 1796 Edward Jenner provocou uns arranhões ao seu próprio filho e neles esfregou o líquido que aparecia nas feridas das tetas das vacas que estavam doentes com a varíola bovina. O certo é que o miúdo ficou imune ao contacto com o vírus da varíola. Estava inventada a primeira vacina.
Hoje grupos de activistas pelos direitos dos animais opõem-se a que os mesmos sejam usados como cobaias no desenvolvimento de medicamentos que podem salvar vidas humanas.
Usar humanos nessas experiências está fora de causa, escrevo eu , embora possa pensar de uma forma diferente face ao que vejo em matéria de investigação e ao súbito interesse em se fazer investigação em África.
Mas vamo-nos deixar de divagações e concentrarmo-nos nas vacinas que evitem a infecção pelo HIV. A chamada vacina preventiva, pois vacina terapêutica é algo que não existe e que devido à falta de imaginação para criarem um nome mais adequado, para uma terapêutica de toma única que mantenha o vírus suprimido assim lhe decidiram chamar.
No passado a versão bovina da varíola, muito mais fraca que a humana permitiu o desenvolvimento de anticorpos que na presença do vírus humano o combatiam eficazmente, não permitindo que as pessoas adoecessem. Assim nasceu o primeiro medicamento preventivo a que chamaram vacina, em homenagem às tetas das vacas.
Não me passa pela cabeça que os cientistas, actuais mesmo face aos comités de ética e a todas as normas proibitivas na investigação não tenham desenvolvido testes com o SIV (o vírus equivalente ao HIV dos macacos) que é um vírus, aparentemente semelhante ao dos humanos, mas o qual não faz com que estes fiquem doentes e morram. Os macacos podem ser seropositivos, mas SIDA é coisa que não têm, enfim macacadas virais, que fazem pensar.
Uma experiência, semelhante em versão século XXI , que não implicaria pôr em risco a vida ou a saúde do filho de um qualquer cientista era capaz de ser interessante e poderia salvar milhões de vidas, mas ou hoje a ciência tornou-se mais complicada ou em suportes outros que não os hospedeiros humanos fazem experiências que não resultam, mas que poderiam resultar em humanos.
Ainda e retrocedendo ao tempo em que os princípios éticos , morais e afins não eram o que são hoje, houve vacinas cuja eficácia não foi provada e ainda hoje o não é pela via cientifica, mas que aplicadas surtem efeito como é o caso da vacina da raiva.
O chato da questão, é a complexidade do vírus e o numero de químicos tomados para a sua supressão ,e a falta de necessidade por aparentemente a doença estar controlada com as tri-terapias . Ainda não entendi bem como as experimentaram mas que surtiram efeito lá isso surtiram. Numa de ser do contra e já a infecção me teria levado para o jardim das tabuletas ou não, talvez fosse melhor que na altura não tivessem sido eficazes (as terapias triplas) pois da cura muita gente teria morrido, mas já teriam descoberto a cura definitiva e erradicado o vírus.
Pensamos ter já muito conhecimento acerca do vírus. Quem está com a infecção no corpo desespera na esperança de uma cura definitiva. Quem está por fora seguindo ao nosso lado sofrendo igualmente connosco, sempre nos dão uma palavra de optimismo e de esperança e que a cura está para breve.
Espero que sim, espero por uma terapia de unidose o que é diferente de uma vacina terapêutica pois tal não existe. Podem chamar-lhe “macacocina” e pode vir das tetas de uma macaca jeitosa que a gente não se importa.
Agora chato, chato são as macaquices dos jornais e meios de comunicação social de massa que passam a vida a anunciar soluções que tardam em aparecer, e que a cada dia atenuam a esperança numa cura antes dos nossos corpos estarem de tal maneira torcidos e danificados com outras patologias desenvolvidas por agentes químicos supostamente tomados para suprimir um vírus que teima em enganar tudo e todos, mas garantindo a sua continuidade como espécie.


Sozinho parti...


Se o medo da morte é inerente á condição humana, o seu último aspecto é, seguramente, o medo de morrer sozinho.
Esta é a história que hoje vamos partilhar convosco.
Chamemos-lhe João. Assumiu-se como homossexual ainda novo e foi expulso de casa pelos pais que nunca mais lhe falaram. Tinha um irmão mais novo, que emigrou, a quem sempre tentou ajudar mas que também lhe acabou por virar as costas.
Um dia João descobre que é seropositivo, procurou esconder de todos o que o rodeavam, levava uma vida normal, trabalhava, tinha o seu próprio apartamento, tinha amigos e tinha um amor na sua vida. Há medida que a doença se foi agravando o parceiro abandonou-o e ele acabou internado num hospital público. Esteve internado durante muito tempo, ninguém o visitava. Faleceu...completamente sozinho.
Apenas um numero de telefone, na sua ficha hospitalar, uma amiga no local onde trabalhava . Ninguém sabia da sua doença, mas numa acção solidária os antigos colegas compraram-lhe roupa e pagaram o funeral. Teria sido sepultado como indigente já que ninguém reclamou o corpo.
A família provavelmente não sabe que ele morreu, ou se soube que estava gravemente doente também não se importou. Esta realidade é infelizmente muito frequente.
Que espécie de pais e irmãos são estes, que nem na hora da morte perdoam (o quê não sei)?
Que espécie de companheiro abandona o outro no momento que este mais precisa de ajuda?
Que espécie de sociedade somos nós que compactuamos com estas situações?
A história é real, e omitimos o nome verdadeiro bem como o nome da instituição onde faleceu, para podermos colher mais testemunhos, daqueles que ainda estão vivos e aos quais vamos dando o apoio possível.
Por muito que nos choque o abandono nos momentos em que mais precisamos dos outros, por considerarmos que somos superiores aos animais aos quais chamamos irracionais, procedemos de maneira semelhante. Semelhante mas muito mais cruel, uma vez que os animais irracionais doentes e fracos ficam para trás da manada e rapidamente são mortos pelos predadores, servindo como alimento a quem dele necessita evitando que outros animais saudáveis sejam mortos. Nós damo-nos ao requinte de prolongar a dor e mesmo que o nosso semelhante queira acabar com o sofrimento pedindo que lhe dêem uma morte digna e sem dor evocamos princípios éticos e morais para o não fazer.
Inventamos deuses e o pecado, inventamos a divindade da vida que só pode interrompida por vontade do criador, mas somos incapazes de pôr fim à mesma para evitar o sofrimento do nosso semelhante. Ironicamente, quase que aceitamos como normal um assassinato a sangue frio num assalto a um banco, a um supermercado ou a uma gasolineira, por um punhado de euros.
Afinal onde estão os sentimentos que caracterizam a raça humana? Escondidos no fundo da nossa consciência colectiva e que só saem à rua quando a vergonha daquilo que aqueles com quem convivemos possam pensar se manifeste.
A revolta que sinto, é comum a muitos dos que nos lêem. Longe da perfeição ou de ser um iluminado, quanto gostaria de viver num mundo com mais amor ao nosso semelhante. Felizmente aqui e ali encontramos exemplos desse mundo que almejamos. Resta a cada um de nós a esperança de podermos contribuir mesmo que modestamente, para que possamos aceitar o nosso semelhante como ele é, sem olharmos à cor da pele, às preferências sexuais, crenças religiosas ou outros factores que nos fazem diferentes uns dos outros.

Texto conjunto de Isabel e Raul

Estamos lá....

Ficamos felizes com distinções como esta ao lado de organizações de renome internacional.

Estamos AQUI e mais em pormenor em:


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Apenas nos resta agradecer a distinção e sabermos ser merecedores dela. Temos medo de não conseguir corresponder às expectativas pois a fasquia já está muito alta. No entanto continuaremos fazendo o nosso trabalho de desmistificação, denunciando quando for necessário e enaltecendo aquilo que de bom se faz em relação à pandemia do VIH.

BEM HAJAM


Como nos mostram ao mundo


“Estou desesperado, descobri que tenho sida. A minha vida acabou…”

Pode vir ou ser pensada com outros verbos mas é o retrato psicológico que espelha inúmeros anónimos atrás de um monitor e por esse mundo fora que se descobrem desesperados e sós dentro de algo que ainda mal conhecem. Quantos passarão silenciosos e sem coragem, colocam a palavra SIDA no Google ansiando por uma luz que lhes indique o caminho a seguir naquilo que se lhes afigura o inferno e a morte?

Quantos descobrem páginas que merecem ser desfolhadas até às entranhas num canto de inovação que fervilha de ideias, multifacetado, quase um manual de bolso e num espaço interactivo cheio de experiências de vida, conselhos e informação, tudo reunido num valioso espólio que culmina numa verdadeira mensagem de esperança?
Porque mostra que nada está perdido
Porque não é o fim mas um reinício
Porque luta para desmistificar crenças enraizadas em anos de ignorância.
Porque não é obscuro e reinam a transparência e a lucidez
Porque nunca se esquiva ao combate
Porque acolhe e ergue bem alto um fogo de amizade
Porque há riso e coragem na veia.
Porque se descobre que a vida também lhes pertence.
Porque ela existe e tem o nome SIDA.

E como que por magia, quando as mil e umas interrogações se vão desvanecendo, se atinge a compreensão das coisas e a intimidade consigo próprio, o tufão que atormentou com um estrondo desaparece e amaina a tempestade. O verdadeiro encontra-se na vida e os passos que darão têm tanta eternidade como os grandes heróis.

Basta dar um passo e encontrar a rua. A casa tem a tabuleta em letras grandes e diz SIDADANIA. Dentro dela vivem os que há muito saíram para a vida e acolhem os que dela se julgam perdidos. As portas estão sempre abertas e enquanto existirem as casas e os homens, assim permanecerão.


É com o texto acima e com a imagem do logo Sidadania, que um site destinado a dar a conhecer ao mundo, instituições de lingua portuguesa dedicadas à saúde, aos direitos humanos e à assistencia social, se propôs a divulgar o nosso blogue.
A quem nos achou merecedores desta divulgação e escreveu este belo texto, o meu bem haja em nome da equipe que mantém este humilde trabalho e que acredita que uma inundação começa com algumas gotas de àgua.
Raul Rudoisxis

SANGUE E PRECONCEITO

(Imagem de Isabel Filipe Art&Design para o Sidadania)


Durante alguns anos fui dador de sangue. O posto onde rotineiramente me apresentava para entrega da minha dádiva era o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral em Lisboa. Aí era sempre recebido com uma afabilidade própria de quem já se tornara parte de uma grande família, cujo primeiro e único móbil era a prestação de auxílio a quem dum bem tão fundamental necessitava.Nesse serviço a minha homossexualidade era conhecida dos vários clínicos que me atendiam na consulta de prévia de rastreio. Nunca tal circunstância era obstáculo à minha entrega periódica do meio litro de meu Rh O negativo; que segundo fiquei a saber era raríssimo e muito necessário. Era com alegria que trimestralmente me apresentava no referido serviço para a respectiva recolha do meu fluido vital, de que tantos careciam.Mas não há bela sem senão. Certo dia foi para esse Serviço de Sangue uma médica jovem (diria menos de 30 anos, pelo que a chamavam de Drª Mariazinha) recém formada, que me calhou na consulta de rastreio. Ao saber da minha homossexualidade ela liminarmente recusou a minha dádiva, afirmando: “Vocês homossexuais, apenas vêm dar sangue para terem análises grátis de despiste do VIH! Recuso-me a aceitar sangue dum homossexual.”Minha estupefacção perante tão vil insulto e tamanha insensibilidade, deixou-me completamente mudo e incrédulo. Saí do consultório e ao ser interrogado na recepção porque me estava indo sem dar sangue apenas pude responder à auxiliar administrativa de serviço que a minha dádiva fora rejeitada por ser homossexual. Depressa abandonei as instalações pois a revolta pelo ultraje apenas me dava vontade de chorar.Já cá fora, ao atravessar o jardim rumo ao portão de saída do hospital, ouvi gritar o meu nome. Era a directora do Serviço de Sangue quem me chamava, correndo em minha direcção. Pediu-me perdão pelo sucedido e para voltar com ela ao Serviço de sangue. Aí ela mesma me atendeu e autorizou a minha doação, tendo ainda me rogado insistentemente que não deixasse de dar sangue e que sempre que me apresentasse na recepção informasse a assistente de serviço que não queria ser atendido pela Drª Mariazinha, pois outro médico me atenderia sem problemas.E por vezes pensamos nós que os jovens têm uma mentalidade mais aberta e sem preconceitos. Pura ilusão.Este caso singular naquela instituição foi uma nódoa que poderia ter manchado a reputação modelar da mesma. Chamo de modelar as normas pela qual se regia (só me refiro ao tempo em que lá recorria para doar sangue, mas espero e acredito, que ainda assim continue) o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral, uma vez que noutras unidades de saúde hospitalares sempre presenciei uma homofobia doentia e encarniçada para com os pretendentes dadores homossexuais. E passo a citar alguns onde tive de omitir a minha homossexualidade para poder prestar o meu auxílio ao próximo, pois logo à entrada me era distribuído um folheto onde grosseiramente se lia que a dádiva estava interdita a homossexuais: Hospital Nossa Senhora do Rosário (Barreiro), Hospital Garcia de Horta (Almada), Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa). Estes os casos que testemunhei pessoalmente, mas acredito que muitos mais haverá ainda por esse país fora. Aí eu tive de mentir por omissão, para que fosse a minha dádiva aceite.Lamentável!
ManDrag yThén

A descriminação no que diz respeito a quem de um modo altruista dá sangue para salvar vidas continua a existir.
Ter uma preferência sexual diferente, ou um parente infectado pelo HIV parecem ser motivos impeditivos, para que um cidadão possa exercer esse nobre acto.
É importante denunciarmos atroplelos por parte do pessoal de saúde que trabalha na recolha de sangue, para que este estado de coisas acabe de uma vez por todas.
Claro que é importante termos um sangue de qualidade sem agentes patogénicos passiveis de provocarem danos às pessoas que recebem esse bem essencial à continuidade de suas vidas, mas para isso basta um controle e testes a cada unidade de sangue doada.
Este testemunho do Mandrag é importante e todos os outros testemunhos que os nossos leitores nos possam trazer para que os possamos publicar.
Em Janeiro publicámos um texto sobre estes atropelos, que o convidamos a ler clicando em :
Sangue Dádiva de Amor
É importante acarinharmos aqueles que num gesto de amor se dispõem a dar sangue. É importante termos nos serviços de sangue profissionais dedicados que dêm importância à necessidade que temos deste fluido que pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
Aqueles que nesses serviços pensam que estão a fazer um favor aos dadores por lhes retirarem o sangue, e dando-lhes previlégios de análises gratuitas, certamente não serão as pessoas indicadas para lá estarem.
Só denunciando casos como este e dando-os a conhecer, poderemos mudar o actual estado de coisas. Não nos podemos calar pois issso será pactuar com injustiças que não têm razão de ser.
Equipe Sidadania