A festa da família recorda-lhe que não tem família e que algures, numa aldeia distante, a vida continua junto à lareira na festa da consoada onde talvez apenas a mãe dê pela sua falta. O coração de mãe talvez interrogue onde ele estará e talvez chore ainda que sorria na mesa que alindou para os outros membros da família.
Ele fez parte desse passado de representações e de afectos onde não cabiam os fracassos e as desilusões.
E eram grandes as expectativas que tinham sobre ele. Engenheiro de profissão depressa trepou na escala hierárquica duma empresa da margem Sul. E foi então que conheceu a Ana e com ela trilhou os caminhos do álcool e das drogas que rápido lhe trouxeram o desemprego. Em fase de reestruturação da empresa e de redução de pessoal, ele conseguiu expor-se e dar os pretextos que os patrões pretendiam para o pôr dali para fora sem indemnização.
O homem de que se falava na aldeia como um caso de inteligência e de sucesso era agora coisa nenhuma. Pelo menos ele assim o sentia enquanto olhava as montras enfeitadas e pensava na caixa de papelão onde pernoitaria naquela noite fria de Inverno.
Ele sabia que estava doente, muito doente mas tinha medo de confrontar-se com a verdade. E afinal que importava o nome da doença se a morte estava por perto? E porque haveria ele de insistir em estar vivo?
A noite fica mais densa quando se deita debaixo duma arcada do Terreiro do Paço. Um rapazito de cerca de 5 anos, filho duns sem-abrigo que, como ele, partilhavam aquele espaço, perguntava por um Pai Natal que o tinha esquecido e deixado as suas mãos vazias.
O nosso homem lembra então que num dos seus bolsos conserva um carrinho dum seu filho que, há vários anos não vê, mas que sente presente sempre que toca naquele brinquedo esquecido no seu gabinete de trabalho na época áurea em que era amado e respeitado.
E num rasgo de generosidade põe o brinquedo nas mãos do petiz que o olha deslumbrado. Sim, porque quem perdeu tudo tem muito para dar nomeadamente esse afecto supremo que lhe permite desprender-se do que mais ama.
E com a felicidade da criança, João adormeceu mais quente e mais feliz. E os seus sonhos foram de um verdadeiro Natal. (*)
* Dedico este texto ao meu amigo J.Carlos falecido no Inverno passado.












