O MEDO

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.·
Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

“A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida.”
Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos.
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'

Quem nunca sentiu o medo? Quem não vive e convive diariamente com o medo no seu dia a dia sobrecarregado de inquietações que, no fundo, não são mais que manifestações do próprio medo?
Medo de viver, medo de morrer, medo de enfrentar a doença e de ir perdendo no percurso as pessoas amadas. Medo da não-aceitação, da solidão, da perda de objectivos sem os quais a vida deixa de ter sentido.
Nós vivemos sobre a tutela do medo se até as coisas boas nos assustam por as não sabermos aceitar ou pela antevisão do sofrimento que nos causarão se as perdermos. O medo é físico, é psicológico, é animal, é a condição humana resumida à inquietação que a domina e que a perverte. O medo é tão intenso quanto a libido que o sacia e lhe dá tréguas, o único mergulho possível em mar encapelado. A única possibilidade de sobrevivência e de criação suprema.
Nós somos o medo e, por isso, não podemos deixar de ter medo.

E é nessa representação do ser em que a socialização eivou de novas inquietações a representação do mundo físico e social, que o infectado pelo HIV recebe a notícia da sua condição. Ele não terá o mesmo rosto perante a família e os amigos a quem deverá comunicar a doença maldita. Ele sente-se semi-castrado perante um sexo que já não se expande livremente mas com novas regras. Ele tem medo de ser rejeitado e da compaixão. Ele tem também medo de ser amado. Ele tem medo de sofrer, tem medo de olhar a vida com olhares que perscrutam as novas fragilidades. Ele tem medo que as portas se fechem e que as portas se abram porque descrer depois de crer é o medo materializado em pesadelo.
Sim, o infectado tem medo do HIV mas mais do que a doença contam as suas representações, as suas crenças, os seus valores e as suas amizades. Ele tem medo porque ele é medo. Um medo que não se dissipa a não ser com os afectos tranquilos de quem sabe partilhar ajudando a caminhar e ajudando-se a si próprio nessa ajuda que o torna mais forte.

Façamos pois do medo a nossa bandeira. E sob a bandeira do medo damos asas às nossas emoções que criam, recriam, transformam e operam milagres. Porque o medo não se deixa comprar nem sofre hierarquias, ele é a nossa consistência e nossa força.
.

Ciência a quanto obriga[va]s ...

Pegar num vírus ou outro agente patogénico mortal e a título de experiência injectá-lo numa criança saudável, para ver o que acontece, é algo que não cabe na cabeça de ninguém nos dias de hoje. Por estranho que pareça foi isso que aconteceu quando em 1796 Edward Jenner provocou uns arranhões ao seu próprio filho e neles esfregou o líquido que aparecia nas feridas das tetas das vacas que estavam doentes com a varíola bovina. O certo é que o miúdo ficou imune ao contacto com o vírus da varíola. Estava inventada a primeira vacina.
Hoje grupos de activistas pelos direitos dos animais opõem-se a que os mesmos sejam usados como cobaias no desenvolvimento de medicamentos que podem salvar vidas humanas.
Usar humanos nessas experiências está fora de causa, escrevo eu , embora possa pensar de uma forma diferente face ao que vejo em matéria de investigação e ao súbito interesse em se fazer investigação em África.
Mas vamo-nos deixar de divagações e concentrarmo-nos nas vacinas que evitem a infecção pelo HIV. A chamada vacina preventiva, pois vacina terapêutica é algo que não existe e que devido à falta de imaginação para criarem um nome mais adequado, para uma terapêutica de toma única que mantenha o vírus suprimido assim lhe decidiram chamar.
No passado a versão bovina da varíola, muito mais fraca que a humana permitiu o desenvolvimento de anticorpos que na presença do vírus humano o combatiam eficazmente, não permitindo que as pessoas adoecessem. Assim nasceu o primeiro medicamento preventivo a que chamaram vacina, em homenagem às tetas das vacas.
Não me passa pela cabeça que os cientistas, actuais mesmo face aos comités de ética e a todas as normas proibitivas na investigação não tenham desenvolvido testes com o SIV (o vírus equivalente ao HIV dos macacos) que é um vírus, aparentemente semelhante ao dos humanos, mas o qual não faz com que estes fiquem doentes e morram. Os macacos podem ser seropositivos, mas SIDA é coisa que não têm, enfim macacadas virais, que fazem pensar.
Uma experiência, semelhante em versão século XXI , que não implicaria pôr em risco a vida ou a saúde do filho de um qualquer cientista era capaz de ser interessante e poderia salvar milhões de vidas, mas ou hoje a ciência tornou-se mais complicada ou em suportes outros que não os hospedeiros humanos fazem experiências que não resultam, mas que poderiam resultar em humanos.
Ainda e retrocedendo ao tempo em que os princípios éticos , morais e afins não eram o que são hoje, houve vacinas cuja eficácia não foi provada e ainda hoje o não é pela via cientifica, mas que aplicadas surtem efeito como é o caso da vacina da raiva.
O chato da questão, é a complexidade do vírus e o numero de químicos tomados para a sua supressão ,e a falta de necessidade por aparentemente a doença estar controlada com as tri-terapias . Ainda não entendi bem como as experimentaram mas que surtiram efeito lá isso surtiram. Numa de ser do contra e já a infecção me teria levado para o jardim das tabuletas ou não, talvez fosse melhor que na altura não tivessem sido eficazes (as terapias triplas) pois da cura muita gente teria morrido, mas já teriam descoberto a cura definitiva e erradicado o vírus.
Pensamos ter já muito conhecimento acerca do vírus. Quem está com a infecção no corpo desespera na esperança de uma cura definitiva. Quem está por fora seguindo ao nosso lado sofrendo igualmente connosco, sempre nos dão uma palavra de optimismo e de esperança e que a cura está para breve.
Espero que sim, espero por uma terapia de unidose o que é diferente de uma vacina terapêutica pois tal não existe. Podem chamar-lhe “macacocina” e pode vir das tetas de uma macaca jeitosa que a gente não se importa.
Agora chato, chato são as macaquices dos jornais e meios de comunicação social de massa que passam a vida a anunciar soluções que tardam em aparecer, e que a cada dia atenuam a esperança numa cura antes dos nossos corpos estarem de tal maneira torcidos e danificados com outras patologias desenvolvidas por agentes químicos supostamente tomados para suprimir um vírus que teima em enganar tudo e todos, mas garantindo a sua continuidade como espécie.


Sozinho parti...


Se o medo da morte é inerente á condição humana, o seu último aspecto é, seguramente, o medo de morrer sozinho.
Esta é a história que hoje vamos partilhar convosco.
Chamemos-lhe João. Assumiu-se como homossexual ainda novo e foi expulso de casa pelos pais que nunca mais lhe falaram. Tinha um irmão mais novo, que emigrou, a quem sempre tentou ajudar mas que também lhe acabou por virar as costas.
Um dia João descobre que é seropositivo, procurou esconder de todos o que o rodeavam, levava uma vida normal, trabalhava, tinha o seu próprio apartamento, tinha amigos e tinha um amor na sua vida. Há medida que a doença se foi agravando o parceiro abandonou-o e ele acabou internado num hospital público. Esteve internado durante muito tempo, ninguém o visitava. Faleceu...completamente sozinho.
Apenas um numero de telefone, na sua ficha hospitalar, uma amiga no local onde trabalhava . Ninguém sabia da sua doença, mas numa acção solidária os antigos colegas compraram-lhe roupa e pagaram o funeral. Teria sido sepultado como indigente já que ninguém reclamou o corpo.
A família provavelmente não sabe que ele morreu, ou se soube que estava gravemente doente também não se importou. Esta realidade é infelizmente muito frequente.
Que espécie de pais e irmãos são estes, que nem na hora da morte perdoam (o quê não sei)?
Que espécie de companheiro abandona o outro no momento que este mais precisa de ajuda?
Que espécie de sociedade somos nós que compactuamos com estas situações?
A história é real, e omitimos o nome verdadeiro bem como o nome da instituição onde faleceu, para podermos colher mais testemunhos, daqueles que ainda estão vivos e aos quais vamos dando o apoio possível.
Por muito que nos choque o abandono nos momentos em que mais precisamos dos outros, por considerarmos que somos superiores aos animais aos quais chamamos irracionais, procedemos de maneira semelhante. Semelhante mas muito mais cruel, uma vez que os animais irracionais doentes e fracos ficam para trás da manada e rapidamente são mortos pelos predadores, servindo como alimento a quem dele necessita evitando que outros animais saudáveis sejam mortos. Nós damo-nos ao requinte de prolongar a dor e mesmo que o nosso semelhante queira acabar com o sofrimento pedindo que lhe dêem uma morte digna e sem dor evocamos princípios éticos e morais para o não fazer.
Inventamos deuses e o pecado, inventamos a divindade da vida que só pode interrompida por vontade do criador, mas somos incapazes de pôr fim à mesma para evitar o sofrimento do nosso semelhante. Ironicamente, quase que aceitamos como normal um assassinato a sangue frio num assalto a um banco, a um supermercado ou a uma gasolineira, por um punhado de euros.
Afinal onde estão os sentimentos que caracterizam a raça humana? Escondidos no fundo da nossa consciência colectiva e que só saem à rua quando a vergonha daquilo que aqueles com quem convivemos possam pensar se manifeste.
A revolta que sinto, é comum a muitos dos que nos lêem. Longe da perfeição ou de ser um iluminado, quanto gostaria de viver num mundo com mais amor ao nosso semelhante. Felizmente aqui e ali encontramos exemplos desse mundo que almejamos. Resta a cada um de nós a esperança de podermos contribuir mesmo que modestamente, para que possamos aceitar o nosso semelhante como ele é, sem olharmos à cor da pele, às preferências sexuais, crenças religiosas ou outros factores que nos fazem diferentes uns dos outros.

Texto conjunto de Isabel e Raul

Estamos lá....

Ficamos felizes com distinções como esta ao lado de organizações de renome internacional.

Estamos AQUI e mais em pormenor em:


.

Apenas nos resta agradecer a distinção e sabermos ser merecedores dela. Temos medo de não conseguir corresponder às expectativas pois a fasquia já está muito alta. No entanto continuaremos fazendo o nosso trabalho de desmistificação, denunciando quando for necessário e enaltecendo aquilo que de bom se faz em relação à pandemia do VIH.

BEM HAJAM


Como nos mostram ao mundo


“Estou desesperado, descobri que tenho sida. A minha vida acabou…”

Pode vir ou ser pensada com outros verbos mas é o retrato psicológico que espelha inúmeros anónimos atrás de um monitor e por esse mundo fora que se descobrem desesperados e sós dentro de algo que ainda mal conhecem. Quantos passarão silenciosos e sem coragem, colocam a palavra SIDA no Google ansiando por uma luz que lhes indique o caminho a seguir naquilo que se lhes afigura o inferno e a morte?

Quantos descobrem páginas que merecem ser desfolhadas até às entranhas num canto de inovação que fervilha de ideias, multifacetado, quase um manual de bolso e num espaço interactivo cheio de experiências de vida, conselhos e informação, tudo reunido num valioso espólio que culmina numa verdadeira mensagem de esperança?
Porque mostra que nada está perdido
Porque não é o fim mas um reinício
Porque luta para desmistificar crenças enraizadas em anos de ignorância.
Porque não é obscuro e reinam a transparência e a lucidez
Porque nunca se esquiva ao combate
Porque acolhe e ergue bem alto um fogo de amizade
Porque há riso e coragem na veia.
Porque se descobre que a vida também lhes pertence.
Porque ela existe e tem o nome SIDA.

E como que por magia, quando as mil e umas interrogações se vão desvanecendo, se atinge a compreensão das coisas e a intimidade consigo próprio, o tufão que atormentou com um estrondo desaparece e amaina a tempestade. O verdadeiro encontra-se na vida e os passos que darão têm tanta eternidade como os grandes heróis.

Basta dar um passo e encontrar a rua. A casa tem a tabuleta em letras grandes e diz SIDADANIA. Dentro dela vivem os que há muito saíram para a vida e acolhem os que dela se julgam perdidos. As portas estão sempre abertas e enquanto existirem as casas e os homens, assim permanecerão.


É com o texto acima e com a imagem do logo Sidadania, que um site destinado a dar a conhecer ao mundo, instituições de lingua portuguesa dedicadas à saúde, aos direitos humanos e à assistencia social, se propôs a divulgar o nosso blogue.
A quem nos achou merecedores desta divulgação e escreveu este belo texto, o meu bem haja em nome da equipe que mantém este humilde trabalho e que acredita que uma inundação começa com algumas gotas de àgua.
Raul Rudoisxis

SANGUE E PRECONCEITO

(Imagem de Isabel Filipe Art&Design para o Sidadania)


Durante alguns anos fui dador de sangue. O posto onde rotineiramente me apresentava para entrega da minha dádiva era o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral em Lisboa. Aí era sempre recebido com uma afabilidade própria de quem já se tornara parte de uma grande família, cujo primeiro e único móbil era a prestação de auxílio a quem dum bem tão fundamental necessitava.Nesse serviço a minha homossexualidade era conhecida dos vários clínicos que me atendiam na consulta de prévia de rastreio. Nunca tal circunstância era obstáculo à minha entrega periódica do meio litro de meu Rh O negativo; que segundo fiquei a saber era raríssimo e muito necessário. Era com alegria que trimestralmente me apresentava no referido serviço para a respectiva recolha do meu fluido vital, de que tantos careciam.Mas não há bela sem senão. Certo dia foi para esse Serviço de Sangue uma médica jovem (diria menos de 30 anos, pelo que a chamavam de Drª Mariazinha) recém formada, que me calhou na consulta de rastreio. Ao saber da minha homossexualidade ela liminarmente recusou a minha dádiva, afirmando: “Vocês homossexuais, apenas vêm dar sangue para terem análises grátis de despiste do VIH! Recuso-me a aceitar sangue dum homossexual.”Minha estupefacção perante tão vil insulto e tamanha insensibilidade, deixou-me completamente mudo e incrédulo. Saí do consultório e ao ser interrogado na recepção porque me estava indo sem dar sangue apenas pude responder à auxiliar administrativa de serviço que a minha dádiva fora rejeitada por ser homossexual. Depressa abandonei as instalações pois a revolta pelo ultraje apenas me dava vontade de chorar.Já cá fora, ao atravessar o jardim rumo ao portão de saída do hospital, ouvi gritar o meu nome. Era a directora do Serviço de Sangue quem me chamava, correndo em minha direcção. Pediu-me perdão pelo sucedido e para voltar com ela ao Serviço de sangue. Aí ela mesma me atendeu e autorizou a minha doação, tendo ainda me rogado insistentemente que não deixasse de dar sangue e que sempre que me apresentasse na recepção informasse a assistente de serviço que não queria ser atendido pela Drª Mariazinha, pois outro médico me atenderia sem problemas.E por vezes pensamos nós que os jovens têm uma mentalidade mais aberta e sem preconceitos. Pura ilusão.Este caso singular naquela instituição foi uma nódoa que poderia ter manchado a reputação modelar da mesma. Chamo de modelar as normas pela qual se regia (só me refiro ao tempo em que lá recorria para doar sangue, mas espero e acredito, que ainda assim continue) o Serviço de Sangue do Hospital Curry Cabral, uma vez que noutras unidades de saúde hospitalares sempre presenciei uma homofobia doentia e encarniçada para com os pretendentes dadores homossexuais. E passo a citar alguns onde tive de omitir a minha homossexualidade para poder prestar o meu auxílio ao próximo, pois logo à entrada me era distribuído um folheto onde grosseiramente se lia que a dádiva estava interdita a homossexuais: Hospital Nossa Senhora do Rosário (Barreiro), Hospital Garcia de Horta (Almada), Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa). Estes os casos que testemunhei pessoalmente, mas acredito que muitos mais haverá ainda por esse país fora. Aí eu tive de mentir por omissão, para que fosse a minha dádiva aceite.Lamentável!
ManDrag yThén

A descriminação no que diz respeito a quem de um modo altruista dá sangue para salvar vidas continua a existir.
Ter uma preferência sexual diferente, ou um parente infectado pelo HIV parecem ser motivos impeditivos, para que um cidadão possa exercer esse nobre acto.
É importante denunciarmos atroplelos por parte do pessoal de saúde que trabalha na recolha de sangue, para que este estado de coisas acabe de uma vez por todas.
Claro que é importante termos um sangue de qualidade sem agentes patogénicos passiveis de provocarem danos às pessoas que recebem esse bem essencial à continuidade de suas vidas, mas para isso basta um controle e testes a cada unidade de sangue doada.
Este testemunho do Mandrag é importante e todos os outros testemunhos que os nossos leitores nos possam trazer para que os possamos publicar.
Em Janeiro publicámos um texto sobre estes atropelos, que o convidamos a ler clicando em :
Sangue Dádiva de Amor
É importante acarinharmos aqueles que num gesto de amor se dispõem a dar sangue. É importante termos nos serviços de sangue profissionais dedicados que dêm importância à necessidade que temos deste fluido que pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
Aqueles que nesses serviços pensam que estão a fazer um favor aos dadores por lhes retirarem o sangue, e dando-lhes previlégios de análises gratuitas, certamente não serão as pessoas indicadas para lá estarem.
Só denunciando casos como este e dando-os a conhecer, poderemos mudar o actual estado de coisas. Não nos podemos calar pois issso será pactuar com injustiças que não têm razão de ser.
Equipe Sidadania

Hoje não tenho mais medo da SIDA


MAPUTO, Meu nome é Amélia Matsinhe e tenho 30 anos. Tenho dois filhos, um menino de 13 e uma menina de sete. Meu marido morreu em 2005. Ele nunca fez o teste mas eu sei que ele tinha SIDA. Só podia ser SIDA, porque ele ficou doente por muito tempo. Eu fiz o teste em 2006. Eu estava doente, muito magra, mas tinha medo de fazer o teste, porque sabia que ia vir positivo. Eu pensava que a SIDA era uma doenca de prostitutas e eu não era prostituta. Ele foi meu único parceiro. Mas uma amiga que tambem é seropositiva viu os sinais e insistiu para eu fazer o teste. Tive que comecar a tomar os antiretrovirais logo depois que descobri que era seropositiva. Na primeira semana tive que ficar na casa dessa amiga. Ela cuidou de mim porque eu estava muito fraca, os comprimidos eram muito fortes e eu não tenho família em Maputo. Com o tratamento, meu corpo começou a reagir. Hoje eu tomo dois comprimidos, um às 7 horas e outro às 19 horas. As crianças sabem que eu sou seropositiva e me lembram de tomar o medicamento. Minha saúde é boa, mas eu sofro muita discriminação onde moro. As mulheres do meu bairro dizem que eu vou morrer logo. Elas não falam na minha frente, mas eu consigo escutar da minha casa. Há dois meses, fecharam a entrada da minha casa com um muro porque eu sou seropositiva e não tenho ninguém para me defender. Agora eu tenho que entrar pela casa do vizinho, por uma passagem provisória. Eu já reclamei, mas as pessoas dizem: “Ela vai morrer logo, para que precisa de passagem?” Um dia o responsável pela vizinhança passou na minha casa porque tinha ouvido que eu tinha SIDA. Ele perguntou se eu me cuidava, se eu trazia homens aqui, se eu usava preservativo. Ele tem medo que eu esteja passando o virus por aí. Eu sei como é difícil a vida de um seropositivo, eu nunca faria isso. Lógico que eu me cuido. Se hoje eu estou saudável é porque me cuido, mas eu não tenho namorado, nem quero ter. Tenho medo, não consigo mais confiar. Quando fiquei sabendo que era seropositiva, chorei por uma semana, não comia. Mas depois eu aceitei porque eu sofri, vi meu marido morrer, mas quero viver para ver meus filhos crescerem. A vida não é fácil. Eu não tenho trabalho e tem dias que não tenho dinheiro para comer. Mas agora eu ajudo outras pessoas, falo para fazerem o teste quando eu vejo os sinais. Hoje eu não tenho mais medo da SIDA.



Amélia Matsinhe diante do muro construído por vizinhos para bloquear a entrada de sua casa.
PlusNews

Análises Clínicas [ Parte Dois ]


Continuamos a explicar o Hemograma, com o intuito de dar ao leitor alguma formação básica do significado dos resultados das análises clínicas e de outros meios de diagnóstico comuns. De seguida pensamos explicar os electrocardiogramas e o significado dos gráficos que apresentam.
Acreditamos que os doentes, são parte activa na cura e tratamento de qualquer doença.
Um doente informado, recebe por parte do médico mais atenção e pode contribuir para minimizar erros que muitas vezes acontecem, por falta de informação/conhecimento do médico, que desconhece toda a história clínica do paciente.
Espero que gostem deste tipo de textos que a equipe “Sidadania” está preparando para todos.
R. Rudoisxis


Série Vermelha - Os Eritrócitos
No relatório do hemograma consta o eritrograma que como o nome indica refere-se ao estudo dos eritrócitos ou glóbulos vermelhos. Contêm um elevado teor de hemoglobina que confere a cor vermelha ao sangue e as suas alterações tanto na quantidade de hemoglobina presente como na forma e no tamanho embora não sejam característica desta ou daquela doença são de grande importância quando associadas a sintomas de algumas patologias. Os valores normais diferem nos homens e nas mulheres. No estudo do eritrócito são então considerados os seguintes aspectos:

Eritrócitos – são os mais numerosos elementos do sangue já que representam o próprio sangue e têm uma duração média de vida de 120 dias pelo que a medula óssea tem de estar sempre a produzi-los. Assim as variações na sua produção para valores abaixo ou acima dos valores normais serão indício da reactividade da medula e do baço que também tem um papel na sua produção. Os valores normais dos eritrócitos situam-se nos 4.0 – 5.0% e abaixo destes valores podem indicar anemias hemolíticas (resultantes de destruição dos eritrócitos), enquanto que valores mais elevados a partir de 6.0% têm geralmente a designação de Poliglobulia (excesso de “sangue”) podendo ter várias causas.

Hemoglobina – Os eritrócitos normais encontram-se saturados de hemoglobina. A quantidade é maior no homem (14.0 a 17.0) do que na mulher (12.0 a 16.0). Acima destes valores podem acompanhar a poliglobulia dos eritrócitos enquanto que os valores abaixo indicam os estados de anemia. Na observação ao microscópio são confirmadas as características na cor do eritrócito sendo que nos estados de anemia por falta de ferro a produção de hemoglobina é mais baixa e os eritrócitos apresentam-se com falta de cor parcial (anisocromia) e/ou total (hipocromia), termos que aparecerão no relatório clínico se for o caso.

Hematócrito – Representa a massa total que as células do sangue ocupam numa unidade de volume. Depende praticamente do volume ocupado pelos glóbulos vermelhos e é por isso de importância fundamental. Os valores oscilam entre 36 e 50% com a média de 42% na mulher e 47% no homem. O valor baixa em todas as anemias.

Volume globular médio (VCM) – 88 – 94 – refere-se ao tamanho dos glóbulos vermelhos e é útil no estudo das anemias e noutras patologias. Quando o diâmetro é inferior ao normal o VCM apresenta-se baixo e diz-se que existe microcitose, característica de anemias por falta de ferro. Quando o VCM é elevado, os glóbulos vermelhos são de tamanho aumentado e existe macrocitose, característica de anemias por carência de Vitamina B12 ou ácido fólico. De notar que também existe macrocitose em patologias do fígado e nas hepatites e aqui são de importância o valor das plaquetas e das transaminases (GOT e GPT) determinadas nas analises de bioquímica.

Hemoglobina Globular média (HCM) – 27.0 – 32.0
Concentração de hemoglobina globular média (CHCM) - 32.0 – 36.0

Estes dois últimos são índices igualmente importantes no diagnóstico das anemias, não serão aqui referidos pois a sua compreensão depende de outras análises e representam uma quantidade imensa de informação.

Finalmente no relatório do hemograma consta ainda a contagem de uns elementos do sangue que dão pelo nome de plaquetas. As plaquetas são as responsáveis pela coagulação espontânea do sangue graças à propriedade de se aglutinarem e aderirem às rupturas nas veias formando um tampão sobre a ferida. Quando em circulação livre, não aderem umas às outras a não ser que haja o rompimento de um vaso. Os valores normais oscilam entre 200.000 a 500.000 e sendo importantes na coagulação torna-se óbvio que um número abaixo do normal favorece a propensão a hemorragias mais demoradas ou de nódoas negras ao mínimo traumatismo. Por outro lado o número elevado de plaquetas aliado a determinadas características do individuo como sejam colesterol e triglicerideos elevados são propícios à formação de outras hemorragias e em casos mais graves, de AVC ou trombose.

(Texto elaborado por: "Equipe Sidadania" GTC)

Nota: Se tiver dúvidas na interpretação de suas análises clinicas, coloque-as em comentários.
Profissionais que fazem parte da "Equipe Sidadania", responderão às suas dúvidas.

Entendendo as Análises Clínicas


O hemograma faz parte do grupo de análises de rotina e é dos testes ao sangue que mais orientam para a existência de um grande número de patologias, desde uma infecção às doenças mais graves até aos casos extremos de leucemias.

Basicamente são o estudo dos componentes do sangue total, que são os glóbulos vermelhos, brancos e as plaquetas. Cada um deles desempenha diferentes funções no organismo e as suas alterações são mencionadas no hemograma, sendo de seguida interpretadas pelo médico. O próprio utente pode perceber o significado das principais alterações sobretudo se já se encontra a par do seu estado de saúde e do funcionamento de alguns órgãos ou até da existência de um foco de infecção.

Na colheita do sangue para hemograma este é colocado num tubo que tem anticoagulante para que o estudo possa ser realizado em condições. O sangue é colocado num aparelho que realiza a contagem automática das variedades de glóbulos brancos (leucócitos) e o resultado apresenta-se sob a forma de uma fórmula leucocitária constituída pela seguinte série e seus valores normais:

- Neutrófilos: 45 a 75%
- Eosinófilos: 2 a 4%
- Basófilos: 0 a 1%
- Linfócitos: 20 a 30%
- Monócitos: 4 a 8%


Na presença de patologias estes valores alteram-se significativamente o que permite orientar no diagnóstico ou no acompanhamento de um processo de cura de uma doença. Estes são os componentes da chamada série branca uma vez que se tratam de glóbulos brancos também denominados de leucócitos. O valor total dos leucócitos é o primeiro a aparecer no relatório do hemograma e o seu valor normal oscila entre 5.000 a 9.000 por milímetro cúbico. Desempenham essencialmente um mecanismo de defesa contra agressões por infecção ou de outra natureza. As funções estão assim distribuídas pelas células acima mencionadas e compreender a sua função será o passo para a interpretação das suas alterações. Resumindo,

Neutrófilos – são essenciais na luta contra infecções microbianas. Quando estão muito aumentados as suas formas são estudadas ao microscópio pois em infecções agudas a medula desata a produzi-los intensamente e passam a circular no sangue ainda sob formas imaturas e nesta observação se conclui que o organismo se encontra a combater uma grande infecção. Existem outras patologias mais complexas que provocam o seu aumento e diagnosticam-se pelo estudo de aspectos particulares do neutrófilo ao microscópio.

Eosinófilos – aparecem aumentados nas infestações por parasitas, nas doenças alérgicas e em casos mais complexos como alguns tipos de leucemia e no sindroma de infiltração pulmonar, no cancro dos brônquios e vários tipos de tumores. Ou simplesmente existe eosinofilia familiar, encontrando-se sempre aumentados sem que haja um estado de doença.

Basófilos – Pouco concorrem para a interpretação do hemograma. São praticamente inexistentes na rotina e o seu aparecimento em número elevado indica patologias graves sujeitas a outro tipo de estudo.

Linfócitos – nos estados de convalescença em que os neutrófilos diminuem após o combate de uma infecção, os linfócitos apresentam-se aumentados. Aumentam também em infecções crónicas como a tuberculose, sífilis, brucelose, mononucleose infecciosa (Epstein-barr ou doença do beijinho), leucemias linfociticas e linfomas (formas de cancro). Em caso de valores abaixo do normal só tem valor quando são mesmo em percentagem muito baixa que em geral representa mau prognóstico: estados de imunodeficiência, infecção por HIV, cirrose hepática e outros processos infecciosos graves.

Monócitos - são células fagocitárias, o que significa que digerem restos de outras células ou corpos estranhos mantendo o organismo livre dos mesmos. Assim aumentam na presença de infecções bacterianas como a tuberculose e na fase de melhoria de infecções agudas. Se a infecção se encontrar em estado agudo, os monócitos tendem a ser inferiores ao normal.

As alterações na série vermelha do hemograma são as respeitantes aos glóbulos vermelhos, ao conteúdo em hemoglobina, tamanho e forma dos mesmos. Abordaremos essa parte num próximo texto a publicar.

(Texto elaborado por: "Sidadania - Grupo Técnico-Cientifico")

VIH e Novas Luzes de Esperança

Depois de vir a lume a cura dum indivíduo submetido a um transplante de medula, aparece de seguida a noticia de que um grupo de investigadores das universidades de Cardiff (País de Gales) e da Pensilvânia (EUA) estão a desenvolver um aglomerado de células artificiais destinadas a combater o vírus da SIDA.
A revista Nature Medicine dá-nos conta de que as células desenvolvidas em laboratório são o que se pode considerar uma réplica às Células T-assassinas, que já existem no corpo humano, mas com alterações laboratoriais específicas para identificarem e actuarem sobre o vírus da Sida mesmo depois deste ter sofrido várias mutações.

Esta inovação, no combate à doença, consiste no facto de que, com esta nova técnica, parece estar vencida a principal dificuldade ao combate do vírus do HIV que residia no facto deste vírus conseguir ludibriar todas as defesas do nosso sistema imunológico e impedir a acção das células assassinas.

Nesta perspectiva, e com a criação deste novo tipo de células criadas com receptores de células T, vai ser possível retardar, enfraquecer e evitar a mutação do vírus HIV, tornando-se assim mais fácil o seu combate e eliminação.

O maior senão apresentado pelos cientistas, no que respeita ao desenvolvimento da investigação, tem sido o facto de os «receptores de células T-assassinas» variarem consoante as diferentes populações raciais.

Apesar de ser uma leiga na matéria surpreende-me que, no espaço de 48 horas, surjam duas notícias paralelas e de oportunidades diferentes sobre a possível cura da doença maldita.

Não tenho dados, nem saberes científicos para analisar e contestar o valor de cada uma das descobertas nem a bondade da sua aplicação.

Porém, que algo está a mexer, parecem não restar dúvidas.

Para além de acompanhar os desenvolvimentos torço, de alma e coração, para que uma resposta clara seja encontrada, no muito curto prazo, e constitua resposta aos 33 milhões dela necessitados.

Porque a vida é só uma. Porque todos estão aqui para a VIHVER.