Testemunho de um Infectado



Publicado no fórum do site Aids Portugal, e com pedido de divulgação através de uma corrente, publicamos aqui um testemunho de vida, que pode servir para alertar pessoas, que ainda não se mentalizaram que a infecção pelo VIH pode acontecer a qualquer um, e que o bom aspecto das pessoas não significa que não sejam portadores do vírus e que possam infectar outros.
O desespero aqui descrito pelo Ricardo, demonstra o peso que o VIH tem naqueles que são apanhados pelas suas garras, no entanto a visão da morte a curto prazo pertence ao passado, embora não possamos descartar essa possibilidade pois ainda acontece embora raramente. Espero que este ser humano, consiga recuperar e viver feliz, pese o facto de que o fardo da infecção e de ter infectado a sua mulher o irá acompanhar por toda a vida. Vale a pena ler. Um abraço
Raul Rudoisxis


Chamo-me Ricardo Matos, tenho 35 anos e não sei se faço os 36!Irónico? Não. Sou realista. e já vão perceber porquê.Sou casado (em união de facto, o que para mim é a mesma coisa) há 6 anos. Um casamento feliz, vários desentendimentos ao longo deste tempo, mas nada que possa ter posto em risco os sentimentos fortes e recíprocos entre mim e a mulher da minha vida - a Paula. A prova está nos 2 seres mais importantes do mundo para mim - os meus piolhinhos - Nádia e André.A Nádia nasceu 1 ano depois de nos juntarmos - veio alterar por completo a nossa vida - os serões com os amigos passaram a ser em casa, o Bairro Alto e o Lux passaram para 2º plano. Mas não fez mal, pois a nossa maior alegria era partilhar todos os momentos com a nossa filhota. Cada gracinha, cada progresso do seu crescimento tinha que ser vivido pelos 2, ou sentiríamos inveja um do outro (no bom sentido).Passaram 3 anos e nasceu o André. Espevitado e muito manhoso, sempre foi um terror, desde o dia em que nasceu. Veio alegrar ainda mais a nossa vida.Antes de nascer o André, passei por um período complicado. Eu e a Paula discutíamos muito, a gravidez dela foi complicada, ela passou muito mal, o humor dela alterou-se completamente, teve algumas complicações e ficou de baixa a partir do 4º mês de gravidez. e eu não tive paciência nem coragem para a apoiar. Eu e a Paula chegávamos a discutir sobre quem deveria levar ou ir buscar a Nádia ao infantário. Eu achava que ela deveria fazê-lo por estar em casa "sem fazer nada", ela dizia-me com toda a razão (hoje admito), que se estava de baixa, por algum motivo era. Não podia fazer esforços nem pegar em pesos, mas eu, no meu mais puro egoísmo, nunca parei para pensar. Eu não fui um bom marido, nem um bom pai, optei pelo caminho mais fácil e refugiei-me nos meus amigos, na noite, nos copos. O ambiente em casa ficou de cortar à faca, tudo era problema para a Paula, em contrapartida, lá fora tudo era maravilhoso, não havia stress com nada, eu era solicitado pelos meus amigos, ninguém fazia perguntas, ninguém me criticava, tudo era perfeito!
Até que um dia, numa das minhas saídas nocturnas, conheci mais profundamente uma das amigas da noite: o nome dela era Mónica, tinha 25 anos, não era propriamente bonita, mas era aquilo que se chama "um chuchusinho". Até esse dia, brincávamos um com o outro, provocávamonos mutuamente, chegámos até a trocar uns beijinhos inocentes, nada de importante. Mas nessa noite, foi diferente, eu tinha vontade de extravasar, não me apetecia pensar na minha vida actual, naquele momento, rejeitei completamente pensamentos sobre a minha vida, a minha mulher, a minha filha. o meu filho que vinha a caminho. Acabei a noite num hotel, achando que o meu acto era apenas um desabafo, pois se a minha vida estava virada do avesso, que mal fazia tentar alegrar-me um pouco!Cheguei a casa à hora do almoço, deparei-me com a cara da minha mulher, a cara de quem tinha passado a noite em branco, angustiada e triste. A minha filha não entendia nada, apenas ficou feliz por ver o pai, sem perceber porque é que ele passou a noite fora.Desculpei-me com os copos, arranjei o álibi perfeito, disse que bebi demais, não estava em condições de conduzir e fiquei a dormir no carro, juntamente com um amigo.Não sei se a Paula acreditou. Só sei que não disse mais nada. Eu senti-me mal, mal por mentir, mal porque senti nojo de mim próprio, pelo que tinha acabado de fazer. Uma noite perfeita acabou num peso brutal na minha consciência. A Paula não merecia nada do que eu tinha feito.O tempo foi passando, as mágoas foram-se atenuando, mas as coisas entre mim e a Paula nunca mais foram as mesmas. Até que nasceu o André. Aí, baixámos as armas por completo e prometemos um ao outro que nunca mais íamos deixar as coisas chegar à exaustão. Éramos uma família e tínhamos que lutar por ela, por nós e principalmente pelos nossos filhotes.Esqueci o assunto, "redimi-me dos meus pecados", dedicando-me à minha família. Mas sempre que me olhava ao espelho, sentia-me um cobarde pela traição e por não ter assumido os meus actos. Mas também, isso poderia estragar tudo. Era melhor ninguém saber de nada.
Há cerca de um ano atrás, a Paula foi ao médico, por causa de umas dores que andava a sentir. Fez exames e detectaram que tinha quistos nos ovários. Teve que ser operada e para tal, foi submetida a uma série de análises - prática comum antes de uma cirurgia. Entre as análises estava a avaliação sobre o HIV. Qual o problema? Nenhum. Nunca poderia acusar nada. mas acusou. A Paula estava infectada com o vírus da sida e a tempestade caiu de novo nas nossas vidas.Tive que admitir o meu erro e automaticamente, fiz também análises.Estava também infectado, fui eu o causador de tudo, de certeza absoluta.Lembrei-me da inconsciência daquela noite, de tudo o que fiz e do que não fiz. Como é que eu pude fazer o que fiz sem usar preservativo, com uma pessoa que eu conhecia há tão pouco tempo. Mas tinha tão bom aspecto.quem haveria de dizer.Percebi também porque é que os antibióticos que andava a tomar não faziam efeito como deviam.Estraguei a minha vida, a vida da minha mulher, dos meus filhos, dos meus pais, de toda a família. A Paula ficou portadora do vírus, por minha culpa. A lição que aprendi, a um custo tão elevado foi que o amor vence tudo. A Paula deu-me uma chapada psicológica que eu nunca vou esquecer.Perdoou o que eu lhe fiz e tem-me proporcionado os melhores momentos da minha vida.Hoje, estou deitado numa cama, sem fazer esforços. Estou com uma broncopneumonia grave, o meu organismo não responde aos tratamentos, não sei quantos dias vou durar.Se me safar desta vez, vou continuar a viver cada momento como se fosse único.Estou angustiado por não haver nada a fazer, pelas consequências do meu acto inconsciente.Quanto à minha amiga, a Mónica, perdi-lhe o rasto, tentei contactá-la logo que aconteceu tudo, mas nunca atendeu. Será que sabia o que tinha?Quantas mais pessoas teriam a mesma coisa? Estas são perguntas para as quais nunca vou ter resposta.Percebi a importância da vida, que, se tivesse uma 2ª oportunidade, nunca desperdiçaria os melhores momentos, as gracinhas dos meus filhos, o amor da minha mulher.
Porque escrevo?Porque quero passar a mensagem a todos os meus amigos e a todos os amigos dos meus amigos.Eu não tive uma 2ª chance, não pude voltar atrás, estraguei tudo.Por isso peço-vos: Não desperdicem as oportunidades da vida.Ponderem sobre o que é mais importante para vocês.Quando "brincarem" com alguém, conhecido ou desconhecido, por mais confiança que possam ter, protejam-se. O bom aspecto das pessoas não indica se estão ou não contaminadas. Cuidado com as caras bonitas (isto é válido também para as mulheres, claro).Mesmo com protecção, façam o teste HIV, porque nunca se sabe.Quando o fizerem, se estiverem a trair alguém como eu (custa muito admitir, mas foi mesmo traição o que eu cometi), cuidado, pensem que não podem estragar mais ainda a vida das pessoas.Eu não consegui voltar atrás mas quero que o meu caso sirva de exemplo.Não vou chegar aos 36 anos, vou deixar para trás uma história de vida muito bonita, os meus filhos, a minha mulher, toda a minha vida. Eles vão ficar marcados para a vida toda, principalmente a Paula que tem a vida dela estragada à custa da minha irresponsabilidade.Peço que não escondam nada dos meus filhos, quero que lhes contem tudo o que o pai fez, que lhes mostrem esta carta, quando puderem entender.Perdi o rasto a muitos amigos de escola, da faculdade e de outros andamentos. Por isso mesmo, quero pedir a quem tem esses contactos, que forme uma corrente e mostre a minha mensagem.O meu exemplo tem que servir para alguma coisa. Como não posso viver, pelo menos a minha morte poderá evitar outras, assim o espero.Às pessoas que me conhecem, provavelmente vão ler a mensagem depois da minha morte: nunca tive inimigos por isso posso dizer que tive todo o prazer em vos conhecer, em ser vosso colega, vosso amigo. não chorem a minha morte, ou se chorarem, sorriam ao mesmo tempo e pensem que a vida é maravilhosa, basta nós querermos.Por último, peço a todos os que lerem a minha mensagem, que pensem sobre o significado de curtir a vida.
Curtir a vida não é fazer o que eu fiz. Pensem muito nisso.CURTAM, PROTEJAM-SE E VIVAM FELIZES!


Com saudades da vida Ricardo Matos

O Rosto da SIDA

No tempo em que a SIDA era sempre noticia, nos jornais e na televisão e em que havia associações que de alguma forma ajudavam os infectados, vi uma reportagem de uma moça infectada que se tinha apaixonado e decidiu casar. Fizeram-lhe a festa de casamento, a boda e ofereceram ao novo casal uma viagem nupcial de sonho.
Nessa altura os seropositivos eram mais do que desejados, para aparecerem na televisão e falarem sobre a doença. Normalmente usavam máscaras tapando-lhes a cara, mas quando aparecia algum corajoso que não usava a máscara era o orgasmo total para os jornalistas.
Mostrar um seropositivo, como exemplar de zoológico para as grandes massas conhecerem o rosto da Sida, como se a doença tivesse rosto.
Conhecia a moça de vista, e embora na altura já estivesse infectado, ainda com certos fantasmas que teimavam em não se despegar da minha mente, gostei de a ouvir falar sobre as suas esperanças de que aparecesse a cura e pronta para realizar os seus sonhos como se o vírus fosse algo de pouca importância em sua vida.
Anos depois perguntei por ela numa associação. Depois de todo o glamour do casamento, não lhe arranjaram casa ou um meio de subsistência que permitisse ao casal ter uma vida com qualidade e lutarem por um futuro como qualquer casal não infectado. Separaram-se pois não havia viabilidade no seu projecto de vida. O noivo voltou ao consumo de drogas e morreu, não sei ao certo se pela doença ou por overdose. A moça voltou à prostituição de onde tinha saído, quando esperançada queria um projecto de vida como qualquer pessoa dita normal não infectada. Nunca mais soube nada dela evaporou-se desaparecendo de cena. Viverá ainda? Será que conseguiu refazer a sua vida? Desconheço, assim como desconheço muitas outras pessoas que estavam com projectos de reinserção social e que deixaram de ser vistas.
O importante aqui e para não divagar, sobre o apoio a seropositivos e à sua continuidade que deixa muito a desejar (se é que ainda existe), vou focar as palavras de esperança que ela tão bem transmitiu, acreditando numa cura futura. Essas palavras fizeram com que eu desenvolvesse também uma esperança da descoberta de uma cura.
Passados alguns anos continuo a acreditar, que a cura finalmente aparecerá um dia. As novas abordagens terapêuticas e o estudo de uma vacina terapêutica, vão alimentando a minha esperança com desilusões umas atrás das outras, quando algo que parece promissor se torna num fiasco. Talvez da minha parte seja, um sonho sebastianista mas continuo a acreditar esperando pacientemente.
Numa altura em que a SIDA já não enche as parangonas dos jornais e dos meios de comunicação de massas, chegou-me um email de um freelancer foto jornalista. Quer fotografar pessoas infectadas com especial relevo para pessoas com mais idade. Promete ter soluções para que a pessoa não seja reconhecida caso o deseje. Diz no dito email que não é mais uma reportagem, mas que está preocupado e procura desmistificar a SIDA e que é um projecto de vida. Entretanto no site que tem, com fotografias já tiradas estas estão à venda.
Não sei se lhe vou responder ou não, mas talvez o venha a fazer se tiver pachorra. Acho que o vou convidar a escrever para um blogue sobre a doença e publicar aqui alguns dos seus trabalhos.
O rosto da SIDA, será que pode ser capturado numa imagem com a nitidez suficiente, para que todos reconheçam um infectado? Missão impossível, digo eu. Este texto não se autodestruirá em cinco segundos depois de o ler. As imagens da SIDA, que aqui não publico, para não correr o risco de originar estigmas e descriminação para com pessoas não infectadas, que eventualmente possam ter parecenças com os modelos fotografados, estão aí.
A teimosia em criar estereótipos de pessoas com sida continua. Até quando?

Como vai este país...

Inibriados pelo Rock in Rio, e Ganzados pela Selecção de Futebol e o Europeu, o orgulho nacional está em alta. Portugal...Portugal...Portugal... o que se passou hoje na Assembleia da Républica, as moções de censura ao governo e as respostas do nosso primeiro, passaram despercebidas, mas toda a gente sabe que Sábado vamos jogar com a Turquia. Se ganharmos começa a loucura nacional. Nas creches os putos de tenra idade, quando vêm uma bandeira nacional nas varandas dos prédios, levantam os bracinhos e gritam... Putogali...Puto Gali...
A Bola (ópio do povo como lhe chamavam) une os portugueses e mostra o quanto nos podemos abstrair das nossas preocupações.
Gostei do texto que se segue que me enviaram por email, e por isso decidi publicá-lo no meu blogue que ninguém lê. Se acidentalmente o ler, porque aqui veio espero que goste também.

Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.

Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.

Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz - os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.

Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: 'Que se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares.'

Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.

Prepara-se (preparam os 'socialistas modernos' de Sócrates) a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela despudorada 'entrevista' à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.

Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.

Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não querem.

A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.

Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.
Texto de Baptista Bastos

Entrevista Interessante

Entrevista Luc Montagnier: uma vacina contra a sida terá de impedir que o vírus sofra mutações
02.06.2008 - 11h41 Ana Gerschenfeld
O cientista francês que descobriu o vírus da sida em 1983 explicou este sábado em Cascais, no primeiro Congresso Ibérico sobre Medicina Anti-Envelhecimento e Tecnologias Biomédicas, a sua visão da medicina do futuro. Depois, falou com o PÚBLICO da vacina que está a desenvolver contra a sida e que acredita poderá estar pronta dentro de uns anos.Luc Montagnier, hoje com 75 anos, é um virologista de longa data. No início dos anos 80, quando começou a epidemia de sida, decidiu desmascarar, com a sua equipa do Instituto Pasteur, em Paris, o agente responsável pela nova praga. O anúncio oficial da descoberta do vírus da sida viria a ser feito na revista Science, num artigo publicado a 25 de Maio de 1983. Vinte e cinco anos depois, e apesar dos repetidos falhanços no mundo inteiro na procura de uma vacina contra o HIV, Montagnier, Prémio Lasker de Medicina e Presidente da Fundação Mundial para o Estudo e Prevenção da Sida da UNESCO, acredita que é possível erradicar para sempre o vírus do organismo das pessoas infectadas graças à vacinação. Por isso, continua a trabalhar activamente, dos dois lados do Atlântico, metade do tempo em França e o resto nos EUA, em empresas privadas que ajudou a fundar.
O que é que a vacina que promete para breve terá de original em relação a todas as suas mal sucedidas predecessoras?
As expressões-chave da resposta de Montagnier são "stress oxidativo", "dispersão genética" ou ainda misteriosas "nanoformas". Algumas das suas ideias são muito especulativas e cientificamente arriscadas, mas Montagnier confia que vai ganhar a sua aposta.
Vinte e cinco anos depois da descoberta do vírus da sida no seu laboratório, em que ponto é que se encontra a investigação?
Desde que isolámos o primeiro vírus, fez-se muita coisa. Primeiro, a identificação do vírus permitiu desenvolver o teste serológico com o qual conseguimos erradicar a transmissão do vírus pelo sangue - pelo menos a de origem médica. Também permitiu definir políticas de prevenção. E, claro, desenvolver medicamentos que, embora não sejam uma cura, permitem hoje que muitas pessoas infectadas vivam com o HIV. Esta é a parte positiva do balanço. A parte negativa é obviamente a ausência de uma vacina. Todos os ensaios clínicos de vacinas têm sido negativos.Mas acho que há muitas pessoas que são expostas ao vírus HIV e cujo sistema imunitário elimina ele próprio o vírus. Se a natureza consegue vencer o vírus, nós também devemos ser capazes.
Há umas semanas, o prémio Nobel norte-americano David Baltimore declarou-se desalentado quanto às perspectivas de desenvolvimento de uma vacina contra o HIV, seja ela terapêutica ou preventiva. Concorda com essa opinião?
Não, não concordo. É a visão de um biólogo molecular que não é médico. Respeito-o profundamente, claro, mas acho que muitos têm uma visão clássica da vacinação e querem tratar o vírus da sida como se fosse um vírus vulgar. Mas há uma diferença entre o HIV e os outros: o HIV aprendeu a mudar constantemente.
Como é que o vírus faz para estar sempre a mudar?
Só agora é que começamos a perceber o processo. Acontece que um dos genes do vírus comanda o fabrico de uma proteína, chamada Tat, que vai induzir um "stress oxidativo" [produção de compostos como os radicais livres, que são tóxicos para as células], o que por sua vez vai provocar mutações no próprio vírus. Isso pode acabar por matar a célula infectada, mas dá tempo suficiente ao vírus para se replicar e mudar.Por outro lado, o vírus fabrica umas coisas chamadas "nanoformas", que são nanoestruturas que fogem a tudo o que possamos fazer contra elas. É possível detectá-las no plasma das pessoas tratadas com triterapias [apesar de o vírus ser indetectável no seu organismo]. A minha convicção é que, se quisermos erradicar realmente o vírus através de uma vacina terapêutica, vamos ter de fazer desaparecer essas nanoformas do plasma das pessoas infectadas. Estamos a estudar essas nanoformas no meu laboratório.
O que é que são essas nanoformas?
São provavelmente estruturas que representam uma parte da informação genética do vírus. Estou a falar de um conceito novo, que é a ideia de "dispersão genética". O vírus da sida utiliza a táctica da guerrilha: espalha bocadinhos por todo o lado para escapar ao exército.
Bocadinhos de ADN?
De ADN, ou talvez de ARN.
No espaço entre as células?
Sim, eles circulam no sangue, no plasma. E enquanto essas nanoestruturas não forem tidas em conta, não haverá vacina que funcione.
Está portanto a desenvolver uma vacina? Quanto tempo acha que vai demorar?Sim e acho que vamos conseguir em relativamente pouco tempo - é difícil dizer ao certo, mas provavelmente dentro de uns anos. Ainda temos de fazer os testes clínicos.
A vacina será terapêutica ou preventiva?
Vamos desenvolver primeiro uma vacina terapêutica, porque é mais fácil provar a sua eficácia. Para testar uma vacina preventiva, é preciso expor milhares de pessoas ao vírus, vacinando algumas e não outras - o que, no limite, não é ético. Ao passo que com uma vacina terapêutica, temos um doente que está a tomar uma triterapia, vacinamo-lo e interrompemos a triterapia. Se a vacina resultou, o vírus não deve regressar quando paramos o tratamento. Se não resultou, o vírus reaparece - é muito simples.As triterapias fazem diminuir a carga viral ao ponto de tornar o vírus indetectável no organismo.
Mas as nanoformas persistem? E o que acontece ao interromper o tratamento?Proliferam muito mais.
E podem voltar a formar vírus?
Tudo isto é hipotético e é preciso ser prudente. Mas acho que, ao contacto das células, podem reconstituir partículas virais. É por isso que os vírus actualmente em circulação têm uma estrutura em "mosaico", são misturas complexas. Não são combinações de genes inteiros, mas de bocadinhos de genes; são autênticos mosaicos de recombinações genéticas.
A sua vacina terá como alvo essas nanoformas?
Não. O alvo será sempre o vírus, através de a produção de anticorpos e de células imunitárias contra ele. Nesse sentido, a nossa vacina é uma vacina clássica. Só que, como as nanoformas são produzidas pelo vírus, se o vírus for totalmente suprimido, elas também deixarão de existir. As nanoformas são marcadores cuja presença nos vai ajudar a avaliar os efeitos da nossa vacina. Não excluímos que possa haver formas de acção específicas contra as nanoformas, mas por enquanto não posso dar mais pormenores.
Já tem resultados publicados sobre essas nanoformas?
Ainda não.
Mas o que é que a sua vacina terá de novo, se é, como acabou de dizer, uma vacina clássica?
O que a vacina vai ter de novo é algo que vai impedir a variação do vírus. Há dez anos que defendo esta abordagem.
Como se faz para impedir que o vírus varie?
Agindo sobre os factores que o tornam variável [ri-se]. É uma resposta de La Palisse... Esses factores são a recombinação genética, a dispersão genética e o "stress oxidativo". De facto, o que é interessante é que os vírus que produzimos há anos nas culturas laboratoriais não mudam. O terceiro vírus que isolei - chamado LAI, e que é utilizado para a produção de todos os testes serológicos no mundo - continua igual a si próprio.O que significa que o que faz mudar o vírus é algo que acontece dentro do organismo humano.Isso mesmo.
Portanto, em vez de fazer vacinas que sirvam contra todas as formas possíveis do vírus, o que pretende fazer no seu laboratório é o contrário: estabilizar o vírus para melhor o abater.
Sim. Queremos impedir que o vírus mude.
Quando descobriu o HIV, imaginava que as coisas pudessem ser tão difíceis?
Não, e todos estávamos enganados. Os americanos pensavam que íamos ter uma vacina preventiva em dois anos. Eu tinha previsto uma vacina talvez para o ano 2000, mas mesmo assim enganei-me... [ri-se]. Mas pensando melhor, quando tivermos uma vacina preventiva, quem é que vamos vacinar? Acontece algo semelhante com a vacina contra o cancro do colo do útero (que na realidade é apenas contra um dos factores deste cancro, o vírus HPV). Será que devemos vacinar as raparigas antes de terem contactos sexuais, ou não? Quando administramos uma vacina a crianças, temos de ter a total certeza de que não vai ter efeitos secundários a longo prazo. Uma vacina preventiva seria com certeza útil, mas o que não sei é se vai ser possível vacinar a população em massa. Penso que a prioridade é a vacina terapêutica.
Hoje estuda a prevenção de doenças crónicas e as doenças degenerativas ligadas ao envelhecimento. Como passou da sida para esta área?
Primeiro, passei da sida para o stress oxidativo, porque constatámos há uns anos que existia um forte stress oxidativo logo desde o início da infecção pelo HIV. Qualquer infecção, bacteriana ou viral, cria um stress oxidativo. Na altura, experimentámos administrar anti-oxidantes a pessoas seropositivas e obtivemos resultados interessantes. Mas quando apareceram as triterapias, os médicos não quiseram mais ouvir falar em antioxidantes - embora este tipo de tratamento esteja agora a voltar como terapia complementar.
Durante a sua conferência, disse que está a promover a criação de centros de prevenção de doenças, onde as pessoas iriam fazer testes, nomeadamente medir o seu stress oxidativo, de forma a poderem agir contra os seus efeitos através de tratamentos, dieta, exercício físico. Isto incluiria a sequenciação do genoma de cada um?
Certamente. Não somos todos iguais do ponto de vista genético. Por isso é que há fumadores inveterados que nunca apanham cancro e outros que nunca fumaram mas que desenvolvem um cancro do pulmão por culpa do fumo dos outros. Conhecer as variações genéticas de cada um é importante para desenvolver uma medicina individualizada, para adaptar os tratamentos e a nutrição a cada pessoa. A única opção para a medicina em termos sociais consiste em prevenir as doenças crónicas que custam mais caro: doenças cardiovasculares, cancros, doenças degenerativas do sistema nervoso. De outra forma os sistemas de segurança social não vão conseguir acompanhar os custos.
As vitaminas C e E têm propriedades anti-oxidantes, mas, recentemente, foi publicado um estudo que sugeria que tomar vitaminas poderia ser mau para a saúde e até encurtar a vida...
É por isso que os médicos hesitam em prescrever vitaminas: porque lhes enchem a cabeça de estudos clínicos mal feitos, com apenas uma vitamina. Houve ensaios com vitamina E que deram resultados negativos, porque não usaram a forma certa de vitamina E e porque a administraram sozinha. Nunca se deve administrar só vitamina E, porque ela faz parte de uma cascata, por assim dizer. É preciso que seja sempre acompanhada de vitamina C. É uma dupla indissociável.
As pessoas não sabem isso.
Pois não. Num grande estudo em França, o Suvimax, junto de milhares de pessoas, um grupo foi tratado com cinco suplementos: vitamina C, E, selénio, zinco e beta-caroteno, o "cocktail" clássico. O outro grupo não tomava nada. Passados uns dez anos, houve uma nítida diminuição na incidência de cancro nos homens que tomavam os suplementos, em particular dos cancros da próstata. A diferença foi menor nas mulheres, talvez porque as mulheres já costumam comer mais frutas e legumes, enquanto os homens só gostam de bife com batatas fritas [ri-se].
Mas então os complexos vitamínicos fazem efeito?
Fazem, na condição de não haver sobredosagens - o excesso também pode ter um efeito pró-oxidativo, portanto as pessoas não se devem automedicar. O que é preciso é que estes produtos, que não são ainda medicamentos, comecem a ser receitados pelos médicos e que, na sequência de ensaios clínicos que mostrem os seus efeitos, se tornem medicamentos de corpo inteiro. Mas isso não será fácil, porque são as misturas destas substâncias que são activas - e, ainda por cima, as melhores misturas são provavelmente as naturais. Mas as misturas de frutas e legumes não interessam à indústria farmacêutica.
Os brócolos e os espinafres não têm valor monetário.
Pois não. As autoridades francesas transpuseram os resultados do Suvimax aconselhando as pessoas a comerem cinco peças de fruta ou legumes por dia. Mas não é assim tão simples, porque é preciso que a fruta e os legumes sejam frescos, o que nem sempre acontece, e que não tenham pesticidas, porque os pesticidas fazem diminuir a produção de moléculas anti-oxidantes pelas plantas tratadas. Mas os produtos biológicos são caros e nem toda a gente pode comprá-los.

Abertura à Blogosfera

O Blogue “SIDADANIA II”, iniciado como um blogue de testes para aprendizagem do lay-out , e outras técnicas bloguistas estava completamente parado sem interesse e só tinham acesso ao mesmo um numero reduzido de pessoas.
Hoje apeteceu-me abri-lo à comunidade da blogosfera. Não vai ser exactamente igual ao Blogue mãe mas não deixará de estar ligado ao mesmo. De momento não tem ligação, mas terá em breve. Está em aberto e acidentalmente pode ser descoberto por um ou outro cibernauta.
É mais um blogue de sonhos, que acredita que a terapêutica para a comunidade seropositiva vai muito para além dos retrovirais fornecidos pelo estado e testes médicos regulares.
Pretendo um blogue modesto, mas com algumas ideias positivas. Não sei o que vai ser, só sei que está aberto e tem algum conteúdo.
Iremos até onde a nossa imaginação nos levar… mas certamente este blogue terá a sua identidade própria.

Entrevista ao NM

Por norma, quando falamos da SIDA, somos dominados por um pensamento ao estilo “acontece aos outros, mas nunca a mim”. Raul Rudoisxis (nome fictício) talvez pensasse da mesma maneira até 1997, altura em que descobriu que era portador do vírus da SIDA. “Andei cerca de um mês com febres que teimavam em não passar, até que fui internado num hospital para pesquisarem a origem das mesmas”, relata-nos Raul, relembrando ainda: “A maneira como a notícia da infecção me foi dada pelo médico foi de uma crueldade e de uma desumanidade inqualificável”.Quando lhe perguntámos como foi que contraiu o vírus, recebemos uma resposta curiosa: “Há uma curiosidade mórbida para se saber como as pessoas foram infectadas. Talvez seja para rotularem o infectado - se foi via sexual, são promíscuos, se foi por se injectarem com substâncias, através da partilha de seringas, são drogados. Em qualquer dos casos, são «outsiders» numa sociedade «certinha» e de bons costumes. Os infectados acabam por ser vistos como pessoas que devem ser postos à margem dessa dita sociedade cheia de preconceitos, que, de alguma forma, procura motivos para apontar o dedo e castigar. No meu caso, foi por via sexual”.
OS «ALIENS» DE MEADOS DA DÉCADA DE 90
É certo que, há 11 anos, a SIDA já não era uma doença desconhecida (bem pelo contrário), mas Raul defende que, na época, “não havia a informação que há hoje”. A própria forma como Raul encarava a SIDA em 1996 e 1997 era, sobretudo, fruto de um conjunto de visões estereotipadas sobre a doença: “Sabia que a SIDA existia. Já tinha passado a febre de que era uma doença de homossexuais masculinos e negros, estávamos na fase em que era também uma doença de prostitutas/os e de drogados que se injectavam”. A própria ideia do que era ser-se seropositivo seria bastante diferente: “Através de filmes que iam passando na televisão, sabia que havia um medicamento, o AZT, que não curava, mas que adiava, por algum tempo, a morte. Lembro-me desses filmes mostrarem os profissionais de saúde - com fatos parecidos com os escafandros dos astronautas - a entrar nessas enfermarias onde, nas camas, jaziam tipos esqueléticos, cheios de tubos e garrafas de alguns litros de AZT a serem-lhes injectados nas veias. Enfim, um cenário de terror, digno de um guião para um filme de ficção científica, em que «aliens» vindos do espaço atacam o planeta terra com uma arma biológica”.A própria forma como Raul via um seropositivo era, há mais de uma década, produto dos estereótipos de então: “A pessoa com SIDA era, para mim, alguém mal vestido, andrajoso, com a cara e o corpo cheio de feridas e muito magro”. “Foram as imagens passadas ao Mundo desde o início que me ficaram na memória”, explicou ao NM o nosso interlocutor. “O quanto eu estava errado e essa minha ignorância no passado faz com que hoje compreenda o que muitas pessoas pensam acerca da SIDA”, frisou.“Morri e voltei a nascer, talvez seja a frase certa para ilustrar as mudanças”, acrescenta ainda.
A RESPONSABILIDADE DE ENTIDADES OFICIAIS
Raul Rudoisxis lamenta que, hoje em dia, muitos preconceitos continuem a sobreviver numa sociedade (supostamente) mais e melhor informada. “A prova disso são os casos que acontecem diariamente, alguns vindos de entidades governamentais responsáveis, que vão alimentando a «fogueira» da discriminação, exclusão social e do estigma”, disse-nos Raul, que, sem se deter, deu mesmo um exemplo: “Parece-me que a actual Coordenação Nacional (para a Infecção VIH/SIDA do Alto Comissariado da Saúde), dirigida pelo professor Henrique Barros, quer fazer reviver esse cenário, com aquela campanha televisiva em que aparece um tipo magricela cheio de pinturas, que mais parecem chagas. Ninguém pensava que uma pessoa com bom aspecto físico, bem arrumadinha e lavadinha, estivesse infectada com o vírus da SIDA. Mas, ainda hoje, há muita gente que pensa assim”.
UMA CAUSA PARA A VIDA
Hoje, passados 11 anos, Raul percebe quão diferente era a percepção que tinha da doença e o que ela é na realidade: “A visão que tenho hoje é completamente diferente. Não porque queira defender-me como infectado que sou, porque passo por cima de todos os preconceitos que existem - e não são poucos -, mas porque assumi a SIDA como uma causa para a vida”. “Estou em luta e em estudo constante sobre a problemática da pandemia, em Portugal e no Mundo. Muitos activistas infectados preocupam-se muito mais com a doença e a sua disseminação do que muitos governos”, contou ao NM.“Os erros do passado deixaram marcas profundas e é um trabalho gigantesco mudar as mentalidades”, explica-nos o nosso entrevistado, sublinhando: “Se todos actuarmos e tivermos o apoio das entidades governamentais, a pouco e pouco, as coisas podem mudar”.
COMEÇA NAS ESCOLAS
Raul defende que a prevenção em relação à SIDA deveria começar logo nas escolas, já que esta seria a única maneira de começar realmente a mudar mentalidades: “O Governo devia apoiar palestras nas escolas com crianças, mesmo antes de estas iniciarem a sua vida sexual activa. As crianças podem levar essas informações para os pais em casa. Era uma maneira de aproveitar o know-how da comunidade infectada e, ao mesmo tempo, de dar-lhes a possibilidade (aos infectados) de, com esse trabalho, arranjarem um meio de subsistência. O saber e a experiência de muitos infectados torna-os em peritos altamente qualificados nessa matéria”.Porém, “a frente de combate não pode ser só na desmistificação da doença”, defende Raul. “Temos de actuar cada vez mais na prevenção, para evitar novas infecções. Os comportamentos têm de mudar e nunca é demais lembrar que a SIDA existe”, acrescenta ainda, afirmando: A educação em relação à doença tem de passar pela informação e não pelo medo. A SIDA não é o «Papão» com que se assustavam as criancinhas.
“NÃO TENHO QUE PUBLICITAR A MINHA DOENÇA”
Para a reportagem do NM, Raul não quis divulgar quaisquer fotos e até mesmo o nome que apresentamos é fictício. Mesmo a idade do nosso interlocutor não é revelada, apesar de Raul não ser propriamente um adolescente, já que tem filhos... e netos. “Não revelo a minha condição de infectado, excepto em casos em que isso é necessário”, contou-nos, sublinhando também: “A minha família sabe, tal como sabem as pessoas envolvidas, de qualquer maneira, na problemática da SIDA com as quais tenho contacto, os meus amigos infectados... e pouco mais. Não tenho que publicitar a minha doença, assim como não o tenho de fazer em relação à minha orientação politica, ao clube de que gosto ou mesmo preferências sexuais”.No dia-a-dia, Raul encontrou uma forma de evitar falar no vírus: “Para os contactos comuns, o meu problema de saúde é uma insuficiência hepática e, recentemente, também problemas cardíacos. E não estou a mentir. Só não sou obrigado a dizer que a minha insuficiência hepática é devida à toxicidade de medicamentos que tomei para o tratamento da SIDA”.Esta questão leva-nos a outra, relacionada com o facto de os seropositivos integrarem grupos de risco no que toca a várias doenças: “Estou ligado a doenças comuns em infectados pelo HIV, como a Hepatite C e as tuberculoses multiresistentes, embora isso não quer dizer que seja tuberculoso ou que tenha Hepatite C”.Mesmo sem mostrar o rosto, Raul não deixa de partilhar com o Mundo as suas experiências e o seu «know-how» sobre a SIDA. Fá-lo, usando o mesmo nome que usou nesta reportagem, no blog SIDADANIA (http://sidadania. blogspot.com/), onde, com uma escrita ligeira e fácil de ler, nos relata experiências, polvilhadas de recomendações e críticas. Para quem deseja saber um pouco mais sobre o que é, REALMENTE, o Síndrome da imunodeficiência adquirida, este pode ser um endereço de visita mais do que recomendável (para não dizer mesmo obrigatória).

Divagações

Há várias coisas em que acredito ou pelo menos tenho uma opinião formada sobre elas.
Acredito por exemplo que a ciência, atingiu um patamar de desenvolvimento, que consegue encontrar soluções para erradicar o HIV.
A comunidade científica, fala da dificuldade em conseguir uma molécula para erradicar o HIV do organismo ou de uma vacina terapêutica para controlar o vírus ou preventiva para que ele não se aloje no corpo do seu hospedeiro.
As mutações do vírus são muitas e a sua capacidade para enganar, tudo aquilo que seja um atentado à sua sobrevivência, são as explicações dadas para o fracasso no desenvolvimento de algo que efectivamente destrua o incómodo hospedeiro.
Será que isto é uma verdade absoluta, depois de trinta anos de investigação e de conhecimentos adquiridos sobre o modus operandi do vírus ou uma grande mentira para calar a opinião pública?
A minha convicção pessoal, e caso a solução para o HIV já tivesse sido encontrada por algum cientista que tivesse sido comprado e (devido a essa descoberta)tenha uma vida principesca para manter o segredo, é que essa molécula está no segredo do deuses e não interessa revelá-la pois anunciá-la seria o suicídio de um império económico, que movimenta , paletes e resmas de dólares e cujos lucros são astronómicos. A lição da galinha dos ovos de ouro foi bem aprendida e ninguém quer matar a galhinha que lhes dá diariamente esses ovos dollarados . Enquanto as patentes para os medicamentos com mais de sete anos forem protegidas e esses medicamentos não puderem ser postos ao serviço da humanidade ao preço da uva mijona, não haverá novas soluções.
A fatia do bolo dedicado à investigação científica está muito abaixo do mínimo desejável.
Depois da descoberta dos ITRs (Inibidores de Transcriptase Reversa dos quais faz parte o famoso AZT) e dos IPs (Inibidores de Protease ) para além dos NNITRs quiseram avançar para os inibidores de fusão, os bloqueadores dos co-receptores CCR5 e agora os Inibidores de Integrase, anda tudo à toa, com o que hão-de fazer.
Por esta altura do texto, muitos dos nossos leitores estarão pensando: -Mas que raio de linguagem, está aqui este Sidas a falar que não vejo boi disto?
É interessante que aqueles que nos apoiam, minimamente saibam o que é uma carga viral, que o estado do sistema imunitário do doente é medido com o numero de células CD4, que são células que combatem diariamente a bicharada que respiramos e com a qual temos contacto não deixando que esses invasores nos provoquem doenças bem como que os doentes tomam combinações de medicamentos de diferentes classes cada uma das quais actua numa das partes do desenvolvimento do vírus. Gostava de saber acerca do interesse dos leitores sobre este assunto, pois é difícil comunicar sem saber o grau de conhecimento dos nossos leitores dobre o HIV.
Aconselho vivamente os nossos leitores a não se meterem nisto, pois é viciante e causa dependência. É pior do que a cocaína e quando começamos queremos mais e mais e nunca sabemos onde vamos parar. Passamos a SIDA-DEPENDENTES, que para quem está infectado é porreiro e para quem não está é capaz de ser chato.
O Texto vai longo, são divagações de um Sidoso, não disse o que queria, retiro deste arrazoado de palavras sem sentido, que é de primordial importância investir em força na investigação científica, e o resto deixo à exploração dos lededores do blogue.
Irei ter mais divagações sobre a minha opinião acerca do mundo da SIDA, e darei continuidade a este texto. Não sei se sabiam que certos medicamentos que tomamos, provocam insanidade mental, daí se algum texto revelar de alguma forma esse predicado, significa que eu sou mais uma vítima a considerar. Um abraço e até à próxima se não for antes.

SER DIFERENTE

A natureza e Deus, para quem acredita, deram, a cada ser humano, diferentes características e diferentes oportunidades.

A sociedade dos homens determinou quais as características que deverão ser valorizadas segundo determinados padrões a que deverão obedecer. Serão esses padrões justos? Serão esses padrões imutáveis?

Naturalmente que não. Ser diferente não é uma inferioridade mesmo quando a natureza impede que cumpra comportamentos comuns. Quem não tem uma zona de interdições no seu código genético?

Mas ser diferente pode significar a superação do ser humano no seu mais sublime transcendente. Este vídeo, oferta dos meus amigos Luiz Santilli e São Banza, mostra-nos, de forma tocante, a capacidade de desafiar os limites mesmo quando se sofre duma incapacitação que, aparentemente nos limita.

Que este vídeo sirva para que todos comecemos a olhar a diferença como uma potencialidade de enriquecimento do património humano com contributos de distintividade e de elevação.

Watcher

Entrevista dada à revista "Pública", alguns anos atrás
Ele preferia uma conversa pela Net, no "messenger", mas acaba por aceitar um encontro, sem fotografia. Sugere um de dois sítios na periferia de Lisboa: uma bomba de gasolina e um centro comercial. Não dá pistas de aparência: pede-as. Será ele a reconhecer, sem poder ser reconhecido.
Às nove e meia da noite, frente à loja x do centro comercial lá está o banco de madeira que Watcher mencionara. Um adolescente que vai embora, um homem que muda de posição, uma mulher que chega. A noite caminha para as dez, e nada.
Até que vem um homem apressado, e atrás dele um rapaz. "Estive mesmo para não vir", diz Watcher, cumprimentando decididamente com dois beijinhos. Apresenta o rapaz. "O meu filho."
Podiam ser os Silva. O filho finalista da universidade, a apanhar boleia do pai, despedindo-se agora para ir às suas voltas. O pai, que não chegou à universidade, a ficar grisalho, pulôver azul-escuro, maço de tabaco no bolso das calças. Watcher é só um "nickname" no "chat" do "site" aidsportugal.com.
"Sabe porque dei dois beijinhos?", pergunta Watcher mal nos sentamos na zona mais despovoada do "fast food". "Para ver a reacção", responde, puxando do primeiro de muitos cigarros. "Nós não somos bichos. Tenho uma vida familiar completamente normal. Se alguém me garantir a subsistência, dou a cara, sem problemas, embora sabendo que algumas pessoas se afastariam."
É um português crescido em Angola, para onde os pais tinham ido. "No 25 de Abril deu-se o colapso, eles tiveram que vir." Watcher, já casado, preferiu tentar a África do Sul. Lá esteve 15 anos, a trabalhar na "área de electrónica", até a violência de Joanesburgo o empurrar para Portugal. "Queria que os meus filhos fossem educados num país em paz."
Começou a trabalhar por conta própria. A mulher ficou em casa. "Como eu ganhava bem, decidimos que ela se dedicasse aos filhos." Em 1996, estava a passar férias com a família fora de Lisboa e teve "uma aventura". "Era uma moça de engate, não era uma prostituta de rua. Conheci-a num bar e passei uns tempos com ela. Arranjava escapadelas."
Nunca usou preservativo. "Não me passava pela cabeça, achava que não seria uma relação de risco. Pensava que os indivíduos com HIV eram asquerosos, drogados." Ela falou em usar preservativo? "Não." Se tivesse falado, teria aceite? "Vamos lá a ver... na altura, para mim, o preservativo era uma barreira, um inibidor. Até seria capaz de aceitar, mas seria um inibidor."
Três meses depois, "tinha umas febres que não passavam", andou em médicos e consultas, até que lhe propuseram fazer o teste. "Eu estava tranquilo." Quando o resultado ficou pronto, o chefe do bloco veio ter com ele. "A primeira coisa que me disse, de uma maneira cruel, fria, foi: 'O senhor está infectado.' Fiquei branco, ia caindo, desmaiando. Depois perguntou-me: 'É homossexual?' Eu disse que não. 'Andou com prostitutas?' Eu disse que em tempos sim, mas actualmente não, embora tivesse tido uma relação com uma pessoa de confiança. Perguntou-me se era casado, disse que sim. E então disse umas palavras que me ficaram marcadas para a vida: se eu ia dizer à família, porque tinha tido um doente que não disse à família."
Watcher saiu do hospital a saber que contar à mulher significava dizer três coisas: a infidelidade, a infecção e a possibilidade dela estar infectada. "Porque antes de eu entrar no hospital, houve um dia em que tive sexo com ela. E já estava contaminado."
Contou-lhe. "Ela foi fazer o teste e deu negativo. Foi um alívio para mim, não tinha feito mal a ninguém. Fiz a proposta de nos separáramos, dividirmos os bens, mas ela não quis. Disse: 'Se estamos casados para o bem, continuamos para o mal'." Também contou à filha e ao filho. "Não reagiram mal. Ao rapaz, que começava a ter uns pêlos na cara, recomendámos que não usasse a minha gilete."
Nos primeiros tempos achou que ia morrer logo. "Não sabia nada sobre a infecção, nada." Começou a ligar para linhas de apoio, até que encontrou a associação Positivo. "Libertei-me daquela obsessão de que ia morrer. Os meus filhos ainda andavam no secundário, então comecei a estabelecer metas de vida. Primeiro, quis ver a ponte Vasco da Gama e fui à feijoada da inauguração. Depois, a Expo. Depois, a minha filha a acabar o curso, e a casar — casou há seis meses. Depois, ver o filho licenciado. E vou vê-lo, se Deus quiser. Não que seja crente de ir à igreja. Sou católico de nascença, não praticante. A minha próxima meta é ter uma morte descansadinha, com netos à volta."
Chegou a tomar 24 comprimidos por dia, hoje toma 11, e está com a carga virai indetectável. Sofreu e sofre com os efeitos secundários dos medicamentos: pedras nos rins, graves lesões no fígado, emagrecimento de pernas e rabo.
Durante sete anos parou de trabalhar. Ven­deu "algum património" para aguentar. Agora trabalha por conta de outrem. Ganha "mil euros limpos, mais carro, bónus, alimentação e gaso­lina". A casa é própria e já está paga. Continua a ter vida sexual. "Claro, nós vivemos. A minha mulher por vezes tem um certo receio, mas habituámo-nos." Sempre com preservativo. "Em qualquer relação que tenha, hoje não concebo não ter preservativo." É o que diz aos filhos e aos sobrinhos, a quem também contou, e que ao todo são 15. "A minha má experiência pode beneficiá-los. Digo-lhes para não confiarem em ninguém, porque não está escrito na testa."
E defende convictamente a legalização da prostituição. "Se houvesse um controle, não se espalharia tanto o vírus e outras doenças, sífilis, gonorreia, hepatites... Há uma grande procura por parte de indivíduos que têm família, porque é completamente diferente ter uma relação com uma prostituta. O homem de vez em quando quer urna coisa extra e vai à procura. Em todo o país, há casas de prostituição para todos os preços, desde 20 euros. Até põem '20 pétalas' nos anúncios. Vá ao jornal e procure. Nós, basicamente, somos animais no que respeita ao sexo. E não temos cio, ao contrário dos animais. Pode ser uma moça que passa e naquele momento faz a ilusão. Há uma oferta muito grande de motéis, entra lá para dentro e tem tudo, encomenda preservativos por telefone, já lhe perguntam se quer com sabor."
No seu caso, ultrapassados os 50 anos, diz, a demanda sexual não é tão grande. "Só em casa. Mas não quer dizer que não possa acontecer." Aos amigos dos almoços e pândegas, a quem não contou da infecção, dá conselhos: "Tomem juízo, que hoje há muita porcaria por aí."
A colaboração no "chat", como membro do painel que responde a dúvidas, é um dos seus orgulhos. "Sou um activista pelos direitos dos seropositivos, para que não sejam marginalizados, para que haja oportunidades de emprego. Já viu a quantidade de miúdas toxicodependentes que andam na rua? Fazem tudo por dinheiro." A seropositividade, o contacto com outros seropositivos, faz parar para pensar na vida. "Passei a ver a homossexualidade de outra maneira. Antes, rejeitava. Agora penso que é uma forma de estar na vida."

Uma Espécie de Banco de Ensaio

Mas nem sempre, alguns posts do "SIDADANIA", poderão ser aqui publicados antes de ser publicados no blogue mã. È a crise das "Listas de Espera" nos nossos hospitais, que agora chegou ao blogue.
É aqui que vou aprender a colocar links e a dar mais beleza ao blog mãe.